A educação é a prática mais humana, considerando-se a profundidade e a amplitude de sua influência na existência dos homens



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Os educadores e teóricos da educação liberal defendem a liberdade de ensino, de pensamento e de pesquisa, os métodos novos baseados mi natureza da criança. Segundo eles, o Estado deve intervir o mínimo Possível na vida de cada cidadão particular. Os católicos também podem

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ser incluídos no pensamento liberal, embora existam alguns mais conservadores como o Padre Leonel Franca. Nessas tendências existem defensores da escola pública e defensores da escola privada. Mas têm em comum uma filosofia do consenso, isto é, não reconhecem no seio da sociedade o conflito de classes e restringem o papel da escola ao estritamente pedagógico. Os educadores e teóricos da educação progressista defendem o envolvimento da escola na formação de um cidadão crítico e participante da mudança social. Também aqui, segundo as diversas posições políticas e filosóficas, encontramos correntes que defendem diferentes papéis para a escola: para uns a formação da consciência crítica passa pela assimilação do saber elaborado; para outros o saber técnico-científico deve ter por horizonte o compromisso político. Uns combatem mais a burocracia escolar e outros a deterioração da educação escolar. Uns defendem mais a direção escolar e outros a autogestão pedagógica. Uns defendem maior autonomia de cada escola e outros maio)r intervenção do) Estado. O pensamento pedagógico brasileiro é muito rico e está em movimento, e tentar reduzi-lo a esquemas fechados seria urna forma de esconder essa riqueza e essa dinâmica. Pág. 239

- Estabelecimento de um sistema completo de educação, com uma estrutura orgânica, conforme as necessidades brasileiras, as novas diretrizes econômicas e sociais da civilização atual e os seguintes princípios gerais: a) a educação é considerada em todos os seus graus como uma função social e um serviço essencialmente público que o Estado é chamado a realizar com a cooperação de todas as instituições sociais; b) cabe aos Estados federados organizar, custear e ministrar o ensino em todos os graus, de acordo com os princípios e as normas gerais estabelecidas na Constituição e em leis ordinárias pela União a que competem a educação na capital do país, uma ação supletiva onde quer que haja deficiência de meios e a ação fiscalizadora, coordenadora e estimuladora pelo Ministério da Educação; c) o sistema escolar deve ser estabelecido nas bases de uma educação integral; em comum para os alunos de um e outro sexo e de acordo com as suas aptidões naturais; única para todos e leiga, sendo a educação primária gratuita e obrigatória; o ensino deve tender progressivamente à obrigatoriedade até 18 anos e à gratuitidade em todos os graus. II - Organização da escola secundária (de 6 anos) em tipo flexível de nítida finalidade social, como escola para o povo, não preposta a preservar e a transmitir as culturas clássicas, mas destinada, pela sua estrutura democrática, a ser acessível e proporcionar as mesmas oportunidades para todos, tendo, sobre a base de uma cultura geral comum, as seções de especialização para as atividades de preferência intelectual (humanidades e ciências) ou de preponderância manual e mecânica (cursos de caráter técnico). III - Desenvolvimento da educação técnica profissional, de nível secundário e superior, como base da economia nacional, com a necessária variedade de tipos de escolas: a) de agricultura, de minas e de pesca (extração de matérias-primas); b) industriais e profissionais (elaboração de matérias-primas); c) de transportes e comércio (distribuição de produtos elaborados), e segundo métodos e diretrizes que possam formar técnicos e operários capazes em todos os graus de hierarquia industrial. IV - Organização de medidas e instituições de psicotécnica e orientação profissional para o estudo prático do problema de orientação e seleção profissional e adaptação científica do trabalho às aptidões naturais, V - Criação de universidades de tal maneira organizadas e aparelhadas que possam exercer a tríplice função que lhes é essencial, de elaborar ou criar a ciência, transmiti-la e vulgarizá-la e sirvam, portanto, na variedade de seus institutos:

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a) à pesquisa científica e à cultura livre e desinteressada; h) à formação dc) professorado para as escolas primárias, secundárias, profissionais superiores (unidade na preparação do pessoal do ensino; c) à formação de profissionais em todas as profissões de base científica: d) à vulgarização ou popularização científica, literária e artística por todos os meios Te extensão universitária. VI - Criação de fundos escolares ou especiais (autonomia econômica) destinados a manutenção e ao desenvolvimento da educação em todos os graus e constituídos, além Te outras rendas e recursos especiais. de uma percentagem das rendas arrecadadas pela união, pelos Estados e pelos municípios. VII - Fiscalização de todas as instituições particulares de ensino que cooperarão com o Estado na obra de educação e cultura, já com função supletiva, em qualquer dos graus de ensino, de acordo com as normas básicas estabelecidas em leis ordinárias, já como campos de ensaios e experimentação pedagógica. VIII Desenvolvimento das instituições de educação e de assistência física e psíquica à criança na idade pré-escolar (creches, escolas maternais e jardins de infância de todas as instituições complementares pre-escolares e pós-escolares: a) para a defesa da saúde dos escolares, como os serviços médico e dentário escolares com função preventiva, educativa ou formadora de hábitos sanitários, e clínica, pelas clínicas escolares, colônias de férias e escolas para débeis) e para a prática Te educação física (praças de jogos para crianças, praças de esportes, piscinas e estádios); b) para a criação de um meio escolar natural e social e o desenvolvimento do espírito de solidariedade e cooperação social como as caixas escolares, cooperativas escolares, etc.); c) para a articulação da escola com o meio social (círculos de pais e professores, conselhos escolares) e intercâmbio interestadual e internacional de alunos e professores; d) e para a intensificação e extensão da obra de educação e cultura (bibliotecas escolares, fixas ou circulantes, museus escolares, rádio e cinema educativo). IX - Reorganização da administração escolar e dos serviços técnicos de ensino, em todos os departamentos, de tal maneira que todos esses serviços possam ser: a) executados com rapidez e eficiência, tendo em vista o máximo de resultado com o mínimo de despesa; b) estudados, analisados e medidos cientificamente, e, portanto, rigorosamente controlados nos seus resultados; c)e constantemente estimulados e revistos, renovados e aperfeiçoados por um corpo técnico de analistas e investigadores pedagógicos e sociais, por meio de pesquisa, inquéritos, estatística e experiência.

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X - Reconstrução do sistema educacional em bases que possam contribuir para a

interpenetração das classes sociais e a formação de uma sociedade humana mais justa e que tenha por objeto a organização da escola unificada, desde o jardim da infância à universidade, 'em vista da seleção dos melhores", e, portanto, o máximo desenvolvimento dos normais (escola comum), como o tratamento especial de anormais, subnormais e supernormais (classes diferenciais e escolas especiais).

Esboço escrito a partir do Manifesto dos pioneiros do educação novo (1932).

ANÁLISE E REFLEXAO

1. Releia o tem b do artigo 1 do texto "Programa Nacional de Educação". Reescreva esse tem com suas próprias palavras para melhor compreendê-lo. 2. Segundo o autor, qual é a tríplice função que deve ser exercida pela universidade?

3. Selecione uma frase ou um trecho do texto que tenha lhe parecido importante. Comente por que achou importante.

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Por escola nova se deve entender, hoje, um conjunto de doutrinas e princípios tendentes a rever, de um lado, os fundamentos da finalidade da educação, de outro, as bases de aplicação da ciência à técnica educativa. Tais tendências nasceram de novas necessidades, sentidas pelo homem, na mudança de civilização em que nos achamos, e são mais evidentes, sob certos aspectos, nos países que mais sofreram, direta ou indiretamente, os efeitos da conflagração européia. Mas a educação nova não deriva apenas da grande guerra. Ela se deve, em grande parte, ao progresso das ciências biológicas, no último meio século, ao espírito objetivo, introduzido no estudo das ciências do homem. É possível resumir os pontos essenciais das novas doutrinas? Parecemos que sim. Do ponto de vista dos fins da educação, a Escola Nova entende que a escola deve ser órgão de reforçamento e coordenação de toda a ação educativa da comunidade: a educação é a socialização da criança. Do ponto de vista político, pretende a escola única e a paz pela escola. Do ponto de vista filosófico, admite mais geralmente as bases do neovitalismo e do neo-espiritualismo, que as do mecanicismo empírico. Dentro desses pontos de vista, e para a consecução de tais fins, propõe novos meios de aplicação científica. Aconselha, primeiramente, a transformação da organização estática dos estabelecimentos de ensino, pelo emprego do estudo objetivo da criança, para classificação racional: e pela verificação objetiva do trabalho escolar (testes), para avaliação objetiva do que foi aprendido. Depois, a transformação da dinâmica do ensino, a reforma dos processos. Ao invés do ensino passivo, decorrente da filosofia sensualista e intelectualista de outros tempos, proclama a necessidade do ensino funcional ou ativo, baseado na expansão dos interesses naturais da criança. Ao invés do "nada está na inteligência que não tivesse passado pelos sentidos", o "nada está na inteligência que não tenha sido ação interessada". Ao invés do trabalho individual, de fundo egoístico, o trabalho em comunidade, que dê o hábito da cooperação. Ao invés da discriminação de materiais, o ensino em situação total ou globalizado. Ao invés da escola de ouvir, a escola de fazer, de praticar a vida. Ao invés da autoridade externa, a reunião de condições que permitiam desenvolver-se, em cada indivíduo, a autoridade interna: toda educação deve ser uma auto-educação.



LOURENÇO FILHO. Introdução ao estudo da Escola Nova. São Paulo, Melhoramentos, 1930.

ANÁLISE E REFLEXAO

1. Dentre os princípios da Escola Nova está o uso dos testes como instrumento de avaliação para fazer a "verificação objetiva do trabalho escolar", O que você acha das avaliações de tipo teste?

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2. A Escola Nova introduziu os trabalhos em grupo, a fim de forjar o "hábito da cooperação". Escreva sobre as vantagens e as desvantagens de fazer um trabalho em grupo. 3. "... toda educação deve ser uma auto-educação." Você concorda com essa afirmação? Por quê? 4. FILOSOFIA E EDUCAÇÃO

Nos dias de hoje, quando a ciência vai refazendo o mundo e a onda de transformação alcança as peças mais delicadas da existência humana, só quem vive à margem da vida, sem interesses e sem paixões, sem amores e sem ódios, pode julgar que dispensa uma filosofia. (.) A filosofia de um grupo que luta corajosamente para viver não é a mesma de outro cujas facilidades transcorrem em uma tranqüila e rica abundância. Conforme o tipo de experiência de cada um, será a filosofia de cada um. A vida vai, porém, assumindo aspectos mais gerais. dia a dia, e os predicamentos da filosofia irão também, assim, dia a dia, se aproximando.

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À medida que se alargam os problemas comuns, mais vivamente sentida será a falta de uma filosofia que nos dê um programa de ação e de conduta, isto é, uma interpretação harmoniosa da vida e das suas perplexidades. Está aia grande intimidade entre a filosofia e a educação. "Se educação é o processo pelo qual se formam as disposições essenciais do homem - emocionais e intelectuais - para com a natureza e para com os demais homens, filosofia pode ser definida como a teoria geral da educação", diz Dewey. (...) Filosofia se traduz, assim, "em educação, e educação só é digna desse nome quando está percorrida de uma larga visão filosófica. Filosofia da educação não é, pois, senão o estudo dos problemas que se referem à formação dos melhores hábitos mentais e morais em relação às dificuldades da vida social contemporânea". Considerada assim, a filosofia, como a investigadora dos valores mentais e morais mais compreensivos, mais harmoniosos e mais ricos que possam existir na vida social contemporânea, está claro que a filosofia dependerá, como a educação, do tipo de sociedade que se tiver em vista. (...) Admitindo que nos achamos em uma sociedade democrática servida pelos conhecimentos da ciência moderna e agitada, em princípio, pela revolução industrial iniciada no século XVIII, a filosofia deve procurar definir os problemas mais palpitantes dessa nova ordem de coisas e armá-los para as soluções mais prováveis. Nenhuma das soluções pode ser definitiva ou dogmática. A filosofia de uma sociedade em permanente transformação, que aceita essa transformação e deseja torná-la um instrumento do próprio progresso, é uma filosofia de hipóteses e soluções provisórias. O método filosófico será, assim, experimental, no sentido de que as soluções propostas serão hipóteses sujeitas à confirmação das conseqüências. Os ideais e aspirações, contidos no sistema social democrático, envolvem a igualdade rigorosa de oportunidades entre todos os indivíduos, o virtual desaparecimento das desigualdades econômicas e uma sociedade em que a felicidade dos homens seja amparada e facilitada pelas formas mais lúcidas e mais ordenadas. Essas aspirações e esses ideais serão, porém, uma farsa, se não os fizermos dominar profundamente o sistema público de educação. (...) A escola tem que dar ouvidos a todos e a todos servir. Será o teste de sua flexibilidade, da inteligência de sua organização e da inteligência dos seus servidores. Esses têm de honrar as responsabilidades que as circunstâncias lhes confiam, e só o poderão fazer transformando-se a si mesmos e transformando a escola. O professor de hoje tem que usar a legenda do filósofo: 'Nada que é humano me é estranho",



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Tem de ser um estudioso dos mais embaraçosos problemas modernos, tem que ser estudioso da civilização, tem que ser estudioso da sociedade e tem que ser estudioso do homem; tem que ser, enfim, filósofo... A simples indicação desses problemas demonstra que o educador não pode ser equiparado a nenhum técnico, no sentido usual e restrito da palavra. Ao lado da informação e da técnica, deve possuir uma clara filosofia da vida humana e uma visão delicada e aguda da natureza do homem.

TEIXEIRA, Anísio. Pequena introdução à filosofia da educação. Nacional, 8ª ed., 1918. p. 146-150.

ANÁLISE E REFLEXAO

1. De acordo com o texto, procure conceituar a filosofia da educação. 2. Procure estabelecer relações de causa e efeito entre três fatores comentados no texto: a revolução industrial, a ciência moderna e a sociedade democrática. 3. Por que o educador não deve ser simplesmente um técnico? Que mais é necessário à sua formação? 4. Nascido no interior de São Paulo, onde fez estudos primários e secundários, ROQUE SPENCER MACIEL DE BARROS (1921) cursou filosofia na Universidade de São Paulo. Nessa instituição passou sua vida profissional como professor na área de história e filosofia da educação, até aposentassem 1984. Além de professor, escreve, desde os 20 anos, para o jornal O Estado de 5. Paulo, com o qual se liga e se identifica profundamente. Foi chefe do Departamento de Educação, diretor da Faculdade de Educação, membro do conselho universitário. Participou do reformo do USP e da reforma universitária, ambas em 1968. Participou ativamente da Componho em Defesa da Escola Público, em 1959. Roque Spencer é pessimista em relação à educação brasileira. Tem afirmado, freqüentemente, que a decadência qualitativa do ensino, a falta de educação dos estudantes, a mediocridade e os movimentos grevistas o levaram a aposentar-se cedo. Afirma-se com satisfação como um liberal; seu liberalismo é, sobretudo, um compromisso de coerência consigo mesmo, isto é, com um pensamento filosófico que não se propõe a ser uma possível solução política para o futuro, nem uma resposta aos problemas concretos da sociedade em que vivemos. Para ele, o liberalismo não se preocupo com esses problemas, uma vez que pressupõe uma sociedade em que os problemas de sobrevivência já estejam resolvidos para todos. Para Roque Spencer, a defesa do liberalismo se resume, fundamentalmente, no ataque ao comunismo. O grande amor que Roque Spencer tem pelo conhecimento fez dele um excelente acadêmico,

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culto, erudito, autor de vários livros. No entanto, ao discorrer sobre problemas sociais tais como o analfabetismo, o desemprego, a miséria, encontra explicações e apresenta soluções que não ultrapassam o senso comum. Principais obras: Diretrizes e bases da educação nacional e A ilustração brasileira e a idéia de universidade (1986). DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO NACIONAL O movimento popular desencadeado contra a aprovação do projeto de Diretrizes e Bases da Educação Nacional pela Câmara dos Deputados já é um momento marcante da história da educação brasileira: graças a ele o problema da educação deixou de ser preocupação de um círculo restrito de especialistas para atingir em cheio as preocupações do povo brasileiro. Só esta tomada da consciência popular em relação aos assuntos pedagógicos já justificaria a campanha de defesa da escola pública, cujo mérito fundamental foi pôr a descoberto, em termos inequívocos, a relação entre o desenvolvimento nacional, a democracia, a melhora de condições de vida, de um lado, e a intensa instrução popular, que só o Estado pode promover, de outro. (...) As condições [do Brasil] são hoje outras: o país se industrializa, o povo se liberta das injunções do caudilhismo que asfixiava as manifestações de sua vontade e reclama, cada vez com mais força, a efetivação de seus direitos. Transformamo-nos, apesar de todas as adversidades, numa democracia. Não numa democracia nominal, apregoada apenas pelos dirigentes do país, mas numa democracia de fato, só possível quando o povo se torna consciente de suas necessidades e de seus direitos. (...) E um dos fatos que nos levam a acreditar que estamos no caminho certo para uma democracia autêntica, em que o direito a uma vida digna não seja o privilégio de alguns grupos, é precisamente a tomada de consciência pedagógica do povo. Este percebe que, sem educação adequada, continuará perpetuamente sob o jugo dos que a sorte favorece e sabe ainda que, subjugada, com ele estará igualmente subjugada a nação no concerto internacional. Nesse sentido, a luta que ora se trava em defesa da escola pública é um verdadeiro divisor de águas na história pedagógica da nação, propiciando o choque inevitável entre duas mentalidades existentes no país. Em certo sentido, é possível dizer, usando a feliz expressão do prof. Jacques Lambert, que se trata de um choque entre os "dois Brastso Brasil arcaico e desatualizado, abaixo do nível da civilização moderna, e o Brasil novo que se procura atualizar, pondo-se ao nível das exigências do século. Para o primeiro. a educação é um instrumento por excelência conservador das posições adquiridas: é estruturalmente um privilégio porque. para ele, as relações entre os homens hão de ser de subordinação e dependência, de obediência passiva de uns em relação a outros. "Educar-se", nestes termos, é tomar posse de posições que, consuetudinariamente. já

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pertencem aos que se educam. Esse é o Brasil discriminatório, o Brasil dos privilégios, contra o qual todo liberalismo verdadeiro vem lutando desde os tempos imperiais. Para o segundo, para o Brasil novo, a educação é um instrumento renovador, uma arma a serviço do progresso, um elemento primordial na luta que se trava contra a estagnação e o subdesenvolvimento, contra a miséria e contra a injustiça, sob a inspiração dos ideais éticos e jurídicos que vêm, dia a dia, tomando forma na evolução da civilização moderna. (...) Para o Brasil novo, a escola não mais pode ser pensada como um "luxo", um gozo do qual estaria excluída a metade da população. E esse novo Brasil sente que só o Estado democrático pode atender às necessidades educativas de todos porque só ele exprime os ideais e os valores comuns, porque só ele tem realmente, em termos civis, o dever de educar e de obrigar os particulares a proporcionarem educação, quando capazes, às crianças e jovens em idade escolar, sob sua responsabilidade. Não que se exclua ou se condene a iniciativa pedagógica privada: todo esforço sério e honesto em educação desde que inspirado na filosofia liberal e democrática da Constituição - que condena as discriminações religiosas, políticas, filosóficas, bem como os preconceitos de raça e classe - deve ser recebido de braços abertos pelo Brasil novo. É esta, pelo menos, a nossa forma de encarar a luta contra o projeto de Diretrizes e Bases da Educação Nacional; é esta, pelo menos, a inspiração que nos leva a dar de nós o que podemos para que o país tenha melhor sorte em matéria de educação.

BARROS, Roque Spencer Maciel de (org.). Diretrizes e bases da educação nacional, São Paulo, Pioneira, 1960.

ANÁLISE E REFLEXÃO

1. O texto que você acabou de ler foi publicado em 1 960. Nele, o autor afirma: "E um dos fatos que nos levam a acreditar que estamos no caminho certo para uma democracia autêntica, em que o direito a uma vida digna não seja o privilégio de alguns grupos, é precisamente a tomada de consciência pedagógica do povo Em que medida essa afirmação é verdadeira no Brasil de hoje? E em que medida é falsa? 2. Cite duas características do "Brasil arcaico" e duas do "Brasil novo".

3. Releia a introdução dessa parte e comente rapidamente sobre a importância da criação das Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

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PASCHOAL LEMME (1904) nasceu no Rio de Janeiro. Colaborou entre 1921 e 1930 na Administração Fernando de Azevedo, no Rio de Janeiro, no projeto educacional da cidade. Entre 1931 e 1935 trabalhou também com Anísio Teixeira e Lourenço Filho na direção da instrução Pública no mesmo Estado. Em 1932, já então do Conselho Diretor da ABE (Associação Brasileira de Educação), juntamente com outros educadores e intelectuais, lança o Manifesto dos pioneiros do educação novo - um projeto de educação dirigido ao povo e ao governo, propondo uma reestruturação do ensino no país. Defendeu no Assembléia Constituinte de 1933-34 as idéias liberais e democráticas que procuravam assegurar ao cidadão a educação como dever do Estado, acessível e igualitário para todos, em oposição à facção católica que procurava designar a escolha da educação à família. Com ele podemos dizer que se inicio o que chamamos de "pensamento pedagógico progressista", embora autores como Antônio Cândido citem também como iniciadores dos ideais progressistas na educação Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira, que tiveram grande influência sobre Paschoal Lemme. A tese central de suas obras é que não há educação democrática a não ser em uma sociedade verdadeiramente democrática. Principais obras: A educação na URSS (1956), Problemas brasileiros de educação (1959), Educação democrática e progressista (1961) e Memórias (1988) em 3 volumes.

SOBRE A EDUCAÇÃO POLÍTICA (...) Mas há sempre uma forma de educação que poderemos chamar de fundamental: é aquela que faz com que o indivíduo passe a compreender a própria estrutura da sociedade em que vive, o sentido das transformações que estão se processando nela, e assim, de mero protagonista inconsciente do processo social, passe a ser um membro atuante dia sociedade, no sentido de favorecer sua transformação ou, ao contrário, a ela se opor, porque ela se dará em detrimento de seus interesses. Essa conscientização em relação aos problemas sociais - que é a educação política - não coincide, assim, nem é facilitada necessariamente pelo fato de o indivíduo ter a oportunidade de adquirir instrução ou ilustração, e é por isso mesmo que podemos encontrar até entre analfabetos pessoas muito mais esclarecidas ou suscetíveis de serem

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esclarecidas politicamente do que entre portadores de títulos universitários. É que estes últimos podem pertencer a setores parasitários da sociedade, improdutivos e alienados, que gozam de situação vantajosa sem darem a ela urna correspondente cota de esforço, de trabalho socialmente útil, enquanto os primeiros, através das relações de trabalho cotidiano e realmente produtivo, se põem em contato com as verdadeiras realidades sociais, que pesam sobre eles, tornando-os mais interessados nas transformações da sociedade, que se processarão em seu benefício, Assim, por exemplo, camponeses incultos poderão ser mobilizados, isto é, esclarecidos, para apoiar correntes políticas que lutam pelas transformações, que aliviarão as duras condições em que vivem, mas também beneficiarão toda a sociedade, uma vez que podem julgar com exatidão o acerto das medidas propostas, pois são exatamente os protagonistas da situação existente. Assim, educar politicamente é revelar ao indivíduo a verdade sobre o contexto social em que vive e sua posição nele, para que essa verdade exerça todo o poder mobilizador que somente a verdade possui. É por isso justamente que os setores da sociedade interessados em manter as condições existentes, de que são beneficiários, fazem o maior esforço e empregam todo o seu poderio para manter sob seu domínio a formação das novas gerações e os meios de divulgação, através dos quais canalizam a "verdade" que lhes é favorável. Lutam, assim, encamiçadamente, para não perderem o controle sobre a escola, o ensino e a educação, domesticadores das consciências, deformadores da realidade, obliteradores dos caminhos de acesso à verdade. Para o especialista em educação, interessado na educação política do povo, a tarefa fundamental será pois a de esclarecê-lo sobre as razões pelas quais a maioria da população do país não consegue sequer deixar de ser analfabeta, enquanto apenas uma ínfima minoria tem condições para atingir os mais altos estágios do ensino. As causas dessa situação, entre nós, residem na própria estrutura econômico-social do país, atrasada, subdesenvolvida, onde a maioria da população ainda vive ou apenas sobrevive de uma atividade agrária com as características de épocas ultrapassadas, onde não há, pois, condições para que floresçam aspirações culturais mais altas, onde uma simples escola primária é na realidade impossível de ser clevidamente estabelecida, pois que não corresponde a qualquer necessidade realmente sentida por essas populações economicamente marginalizadas, que a não poderiam freqüentar regularmente, mesmo no caso de haver recursos disponíveis para estabelecê-la com eficiência. A falta de educação política leva também muitos administradores desavisados a se comprometerem com planos mirabolantes de alfabetização, que se tornam demagógi- cos, defraudadores das minguadas verbas existentes, uma vez que a estrutura econômico-social permanece inalterada. (...)



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