A educação é a prática mais humana, considerando-se a profundidade e a amplitude de sua influência na existência dos homens



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pág. 250 O PENSAMENTO Pedagógico BRASILEIRO

Muito mais importante (...) é mobilizar os milhões de analfabetos para obterem o direito de voto, com que derrubarão as oligarquias opressoras e marcharão para uma organização social mais justa, que lhes permitirá ter aspirações culturais mais altas. LEMME, Paschoal. memórias. São Paulo, Cortez, 1988, vai. 3. p. 73-16.

ANÁLISE E REFLEXÃO

1. Como o autor explica o fato de que pessoas analfabetas podem ser muito mais esclarecidas do que outras que possuem títulos universitários?

2. O que é "educar politicamente"?

3. Para o autor, por que a maioria da população não consegue deixar de ser analfabeta? Nascido no Rio de Janeiro, ÁLVARO VIEIRA PINTO (1909-1987) formou-se em Medicina efoi um autodidata no campo da filosofia. Foi exilado em 1964. Viveu na Iugoslávia e depois no Chile, onde trabalhou com Paulo Freire, fazendo conferências organizadas pelo Ministério da Educação. O pensamento pedagógico de Vieira Pinto supõe que a educação implica uma modificação de personalidade e é por isso que é tão difícil aprender. Ela modifica a personalidade do educador, ao mesmo tempo que vai modificando a do aluno, e ainda que a educação reflita a totalidade cultural que acondiciona, é também um processo utogerador de cultura. Vieira Pinto morreu aos 78 anos, deixando uma herança de inúmeras obras. Principais obras: Consciência e realidade nacional Ideologia e desenvolvimento nacional, A questão da Universidade, Sete lições sobre educação de adultos (1982), Ciência e existência.

CARÁTER HISTÓRICO-ANTROPOLÓGICO DA EDUCAÇAO A educação é um processo, portanto é o decorrer de um fenômeno (a formação do homem) no tempo, ou seja, é um fato hist órico. Porém, é histórico em duplo sentido: primeiro, no sentido de que representa a própria história individual de cada ser humano; segundo, no sentido de que está vinculada à fase vivida pela comunidade em uma continua evolução. (...)

Este texto foi escrito em 1964 mas não pôde ser publicado em razão do terrorismo cultural imposto naquele ano pelo regime militar.

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A educação é um fato existencial. Refere-se ao modo como (por si mesmo e pelas ações exteriores que sofre) o homem se faz ser homem. A educação configura o homem em toda sua realidade. (...) A educação é um fato social. Refere-se à sociedade como um todo. É determinada pelo interesse que move a comunidade a integrar todos os seus membros à forma social vigente (relações econômicas, instituições, usos, ciências, atividades, etc.). É o procedimento pelo qual a sociedade se reproduz a si mesma ao longo de sua duração temporal.

A educação é um fenômeno cultural. Não somente os conhecimentos, experiências, usos, crenças, valores, etc. a transmitir ao indivíduo, mas também os métodos utilizados pela totalidade social para exercer sua ação educativa, são parte do fundo cultural da comunidade e dependem do grau de seu desenvolvimento. Em outras palavras, a educação é a transmissão integrada da cultura em todos os seus aspectos, segundo os moldes e pelos meios que a própria cultura existente possibilita. O método pedagógico é função da cultura existente. O saber é o conjunto dos dados da cultura que se têm tornado socialmente conscientes e que a sociedade é capaz de expressar pela linguagem. Nas sociedades iletradas não existe saber graficamente conservado pela escrita e, contudo, há transmissão do saber pela prática social, pela via oral e, portanto, há educação. Nas sociedades altamente desenvolvidas, com divisões internas em classes opostas, a educação não pode consistir na formação uniforme de todos os seus membros, porque: por um lado, é excessivo o número de dados a transmitir; e, por outro, não há interesse nem possibilidade em formar indivíduos iguais, mas se busca manter a desigualdade social presente. Por isso, em tais sociedades, a educação pelo saber letrado é sempre privilégio de um grupo ou classe. (...) A educação se desenvolve sobre o fundamento do processo econômico da sociedade, Porque é ele que: - determina as possibilidades e as condições de cada fase cultural; - determina a distribuição das probabilidades educacionais na sociedade. em virtude do papel que atribui a cada indivíduo da comunidade; - proporciona os meios materiais para a execução do trabalho educacional, sua extensão e sua profundidade' dita 05 fins gerais da educação, que determina se em uma dada comunidade serão formados indivíduos de níveis culturais distintos, de acordo com sua posição no trabalho comum na sociedade fechada, dividida) ou se todos devem ter as mesmas oportunidades e possibilidades de aprender (sociedades democráticas). A educação é uma atividade teológica. A formação do indivíduo sempre visa a um fim. Está sempre "dirigida para'. No sentido geral esse fim é a conversão do educando pág. 152

em membro útil da comunidade. No sentido restrito, formal, escolar, é a preparação de diferentes tipos de indivíduos para executar as tarefas específicas da vida comunitária (daí a divisão da instrução em graus, em carreiras, etc.). O que determina os fins da educação são os interesses do grupo que detém o comando social. A educação é uma modalidade de trabalho social (...) A educação é parte do trabalho social porque: - trata de formar os membros da comunidade para o desempenho de uma função de trabalho no âmbito da atividade total; - o educador é um trabalhador (reconhecido como tal); - no caso especial da educação de adultos, dirige-se a outro trabalhador, a quem tenciona transmitir conhecimentos que lhe permitam elevar-se em sua condição de trabalhador... A educação é um fato de ordem consciente. E determinada pelo grau alcançado pela consciência social e objetiva suscitar no educando a consciência de si e do mundo. E a formação de autoconsciência social ao longo do tempo em todos os indivíduos que compõem a comunidade. Parte da inconsciência cultural (educação primitiva, iletrada) e atravessa múltiplas etapas de consciência crescente de si e da realidade objetiva (mediante o saber adquirido, a cultura, a ciência, etc. ) até chegará plena autoconsciência.

A educação é um processo exponencial, isto é, multiplica-se por si mesma com sua própria realização. Quanto mais educado, o homem mais necessita educar-se e portanto exige mais educação. Como esta não está jamais acabada, uma vez adquirido o conhecimento existente (educação transmissiva) ingressa-se na fase criadora do saber (educação inventiva). A educação é por essência concreta. Pode ser concebida a priori, mas o que a define é sua realização objetiva, concreta. Esta realização depende das situações históricas objetivas, das forças sociais presentes, de seu conflito, dos interesses em causa, da extensão das massas privadas de conhecimento, etc. Por isso, toda discussão abstrata sobre educação é inútil e prejudicial, trazendo em seu bojo sempre um estratagema da consciência dominante para justificar-se e deixar de cumprir seus deveres culturais para com o povo. A educação é por natureza contraditória, pois implica simultaneamente conservação (dos dados do saber adquirido) e criação, ou seja, crítica, negação e substituição do saber existente. Somente desta maneira é profícua, pois do contrário seria a repetição eterna do saber considerado definitivo e a anulação de toda possibilidade de criação do novo e do progresso da cultura.

PINTO, Álvaro Vieira. Sete lições sobre educação de adultos. São Paulo, Cortez, 1982..

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ANÁLISE E REFLEXAO

1. a) Por que a educação numa sociedade de classes não se estende a todos?

b) Compare as opiniões de Álvaro Vieira Pinto e as de Paschoal Lemme a respeito dessa questão. Aponte as divergências de posição ou os pontos em comum.

2. Por que a educação é por natureza "contraditório"? A PEDAGOGIA DO OPRIMIDO PAULO FREIRE: PAULO FREIRE (1921) nasceu em Recife, no todo de Pernambuco. Foi professor de português de 41 a 47, quando se formou em Direito na Universidade do Recife, sem, no entanto, seguir carreira. Entre 47 e 56 foi assistente e depois retardo Departamento de Educação e Cultura do SESI/PE, onde desenvolveu suas primeiras experiências com educação de trabalhadores e seu método que ganhou forma em 1961 com o movimento de Cultura Popular do Recife. Entre 57 63 lecionou história e filosofia da educação em cursos da Universidade do Recife. Em 63 presidiu Comissão Nacional de Cultura Popular e coordenou o Plano Nacional de Alfabetização de Adultos, convite do Ministério da Educação, em Brasília, ,Governo de João Goulart. Foi a época do MEP movimento de Educação Popular). Como diretor Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife desenvolveu um extenso programa de educação de adultos. Em 1964 a ditadura militar obrigou-o a quinze dias de exilo. Foi para o Chile onde, até 1969, assessorou o governo democrata-cristão de Eduardo Frei em programas de educação popular. Na Suíça, com um grupo de exilados, fundou manteve o IDAC (Instituto de Ação Cultural), assessorando governos de vários países em programas educacionais, como a Nicarágua, SãoTomé e Príncipe e Guiné-Bissau. De 72 a 74 lecionou na Universidade de Genebra. De 72 a 79, quando voltou do exílio, trabalhou no Conselho Mundial de Igrejas, sediado em Genebra (Suíça), e lecionou na Pontifício Universidade Católica de São Paulo. Em 1980 recebeu o prêmio Rei Balduíno da Bélgica e, em 1986, o Prêmio Educação para a Paz da Unesco. Foi Secretário Municipal de Educação de São Paulo (1989-1 991). Hoje, assessora programas de pós-graduação na Pontifício Universidade Católica de São Paulo e na Universidade Estadual de Campinas. Toda a sua obra é voltada para uma teoria do conhecimento aplicada à educação, sustentada por uma concepção dialética em que educador e educando aprendem juntos numa relação dinâmica qual a prática, orientada pela teoria, reorienta essa teoria, num processo de constante aperfeiçoamento. Paulo Freire é considerado um dos maiores educadores deste século. Suo principal obra, Pedagogia do oprimido, foi até hoje traduzida em 18 línguas. Paulo Freire vem marcando o pensamento pedagógico deste século. Destacamos: a) sua contribuição à teoria dialética do conhecimento, para a qual a melhor maneira de refletir

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é pensara prática e retornara ela para transformá-la. Portanto, pensara concreto, a realidade, e não pensar pensamentos; b) a categoria pedagógica da "conscientização", criada por ele, visando, através da educação, a formação da autonomia intelectual do cidadão para intervir sobre a realidade. Por isso, para ele, a educação não é neutra. E sempre um ato político. Principais obras: Educação como prático do liberdade (1967), Pedagogia do oprimido (1970), Ação cultural para a liberdade (1975), Extensão ou comunicação (1971), Educação e mudança (1979), A importância do ato de ler (1983), A educação na cidade (1991), Pedagogia da esperança (1992).

A EDUCAÇÃO É UM QUEFAZER NEUTRO?

O problema que se põe àqueles que, mesmo em diferentes níveis se comprometem com o processo de libertação, enquanto educadores, dentro do sistema escolar ou fora dele, de qualquer maneira dentro da sociedade (estrategicamente fora do sistema' taticamente dentro dele), é saber o que fazer, como, quando, com quem, para que, contra que e em favor de quê. Por isto, ao tratar, em diferentes oportunidades. como agora, o problema da alfabetização de adultos, jamais a reduzi a um conjunto de técnicas e de métodos. Não os subestimando, também não os superestimo. Os métodos e as técnicas, naturalmente indispensáveis, se fazem e se refazem na práxis. O que se me afigura como fundamental é a clareza com relação à opção política do educador ou da educadora, que envolve princípios e valores que ele ou ela assumir. Clareza com relação a um "sonho possível de ser concretizado". O sonho possível deve estar sempre presente nas nossas cogitações em torno dos métodos e das técnicas. Há uma solidariedade entre eles que não pode ser desfeita. Se, por exemplo, a opção do educador ou da educadora é pela modernização capitalista, a alfabetização de adultos não pode ir, de um lado, além da capacitação dos alfabetizandos para que leiam textos sem referência ao contexto; de outro, da capacitação) profissional com que melhor venciam sua força de trabalho no que, não por coincidência, se chama "mercado de trabalho'. Se revolucionária é sua opção, o fundamental na alfabetização de adultos é que o alfabetizando descubra que o importante mesmo não) é ler estórias alienadas e alienantes, mas fazer história e por ela ser feito. Correndo o risco de parecer esquematicamente simétrico diria que, no primeiro caso, os educandos jamais são chamados a pensar, criticamente, os condicionamentos de seu próprio pensamento, a refletir sobre a razão de ser de sua própria situação, a fazer uma nova "leitura" da realidade que lhes é apresentada como algo que é e a que devem simplesmente melhor adaptar-se. O pensamento-linguagem é desconectado da objeti pág.255

vidade: os mecanismos de introjeção da ideologia dominante jamais discutidos. O conhecimento é algo que deve ser "comido" e não feito e refeito. O analfabetismo é visto ora como uma erva daninha, ora como uma enfermidade, daí que se fale tanto de sua "erradicação" ou se refira a ele como a uma "chaga". Objetos no contexto) geral da sociedade de classes enquanto oprimidos e proibidos de ser, os analfabetos continuam objetos no processo da aprendizagem da leitura e da escrita, É que comparecem a este processo, não como quem é convidado a conhecer o conhecimento anterior para, reconhecendo as limitações deste conhecimento, conhecer mais. Pelo contrário, o que a eles se lhes propõe é a recepção passiva de um "conhecimento empacotado". No segundo caso, os educandos são convidados a pensar. Ser consciente não é, nesta hipótese, uma simples fórmula ou um mero 'slogan". É a forma radical de ser dos seres humanos enquanto seres que, refazendo o mundo que não fizeram, fazem o seu mundo e neste fazer e re-fazer se re-fazem. São porque estão sendo. O aprendizado da leitura e da escrita, como um ato criador, envolve, aqui, necessariamente, a compreensão crítica da realidade. O conhecimento do conhecimento anterior a que os alfabetizandos chegam ao analisar a sua prática concreta abre-lhes a possibilidade de um novo conhecimento. Conhecimento novo, que indo mais além dos limites do anterior, desvela a razão de ser dos fatos, desmistificando assim as falsas interpretações dos mesmos. Agora, nenhuma separação entre pensamentos linguagem e realidade; daí que a leitura de um texto demande a 'leitura" do contexto social a que se refere. Não basta saber ler mecanicamente que "Eva viu a uva". E necessário compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir uvas e quem lucra com esse trabalho, Os defensores da neutralidade da alfabetização não mentem quando dizem que a clarificação da realidade simultaneamente com a alfabetização é um ato político. Falseiam, porém, quando negam o mesmo caráter político à ocultação que fazem da realidade.

(Parte final da fala de Paulo Freire, no Simpósio Internacional para a Alfabetização, em Persépolis, IRÃ, em setembro de 1975)

ANÁLISE E REFLEXAO

1. "... o importante mesmo é não ler estórias alienadas e alienantes, mas fazer história e por ela ser feito." Tendo em mente essa afirmação feita por Paulo Freire, comente:

a) a postura do educador que faz uma opção revolucionária de educação;

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b) o "conhecimento empacotado" que a educação da sociedade de classes propõe.



2. Comente o que Paulo Freire fala sobre a frase de cartilha "Eva viu o uva".

RUBEM ALVES (1933) nasceu em Minas Gerais. A falência de seu pai o levou para o Rio de Janeiro e sua solidão nessa cidade o fez religioso e amante da música. Quis ser médico, pianista e teólogo. Passou por um seminário protestante, foi pastor em Lavras (Minas Gerais). Fez mestrado em Nova Iorque (1962-1963) e sua volta ao Brasil em 64 o fez acreditar que seria melhor continuar estudando fora do país. Fez doutoramento em Princeton. Escreveu Da esperança, no ponto mesmo em que a teologia da libertação estava nascendo, Tomorrow's child, sobre o triste destino dos dinossauros e a sobrevivência das lagartixas, para concluir que os grandes e os fortes pereceram, enquanto os mansos e fracos herda- rão o terra. E ainda: O enigma da religião; O que é religião; Filosofia da ciência: introdução ao jogo e suas regras. Criado numa tradição calvinista, lutou, como costuma dizer, contra as obsessões de pontualidade e trabalho, companheiras das insônias e das úlceras. Dois pequenas livros são muito conhecidos pelos educadores brasileiros: Conversas com quem gosta de ensinar e Estórias de quem gosta de ensinar. Atualmente, além de exercer a profissão de psicanalista, escreve contos para crianças. Para Rubem Alves "é preciso reaprendera linguagem do amor, das coisas belas e das coisas boas, para que o corpo se levante e se disponha a lutar"*

A ESCOLA: FRAGMENTO DO FUTURO

Pediram-me para contar os meus desejos... Que eu dissesse quais são) os meus sonhos para a escola do meu filho... Os antigos acreditavam que as palavras eram seres encantados, taças mágicas transbordantes de poder. Os jovens também sabiam disto e pediam: A sua bênção, meu pai..." Bênção, bendiçào, bendizer, bem-dizer, benzer, dizer bem... A palavra, dita com desejo, não ficaria vazia: era como sêmen, semente que faria brotar, naquele por ela penetrado, o desejo bom por ela invocado.

ALVES, Rubem. Estórias de quem gosta de ensinar. São Paulo, Cortez, 1984. Pág.251

E o pai respondia:

Meus desejos são poucos e pobres. Te desejo tanto bem que não hasta o meu bem-dizer. Por isto, que Deus te abençoe. Que seja ele aquele que diga todo o bem com todo o poder... E então, pelo milagre da fantasia, tudo se tornava possível. As palavras surgiram como cristais de poesia, magia, neurose, utopia, oração, fruição pura de desejo. E isto que acontece sempre que o desejo fala e diz o seu mundo. Viramos bruxos e feiticeiros e a nossa fala constrói objetos mágicos, expressões simples de amor, nostalgia por coisas belas e boas, onde moram os risos... É só isto que desejo fazer: saltar sobre os limites que separam o possível existente do utópico desejado, que ainda não nasceu. Dizer o nome das coisas que não são, para quebrar o feitiço daquelas que são.., Seus rostos diziam que eram crianças excepcionais. O ano do deficiente as trouxera à nossa contemplação doméstica, até que se voltavam para o telespectador, com a sua mensagem: Esperamos que, no final de tudo isto, estas crianças possam ser úteis à sociedade," Nunca ouvi ninguém que dissesse: O que a gente deseja mesmo é que as crianças estejam se divertindo e possam vir a ser um pouquinho mais felizes..." Talvez pensassem, mas não podiam dizer por medo. Perderiam os empregos. Todos sabem que o objetivo da educação é executar a terrível transformação: fazer com que as crianças se esqueçam do) desejo de prazer que mora nos seus corpos selvagens, para transformá-las cm patos domesticados, que bamboleiam ao ritmo da utilidade social. Filosofia silencio de cada criança é um meio para esta coisa grande que é a sociedade. Mas, e a alegria e o prazer? Aqueles corpos não têm direitos? Não haverá neles urna exigência de felicidade? Pais de outros filhos fazem perguntas mais sutis: Que é que você vai ser quando crescer?" No fundo, a mesma coisa. Agora, você nada é. Será, depois de passar pela escola, Como na história dc Pinóquio, suponhamos que a criança, ignorando a armadilha, responda simplesmente: Quando crescer quero ter muito tempo para olhar as nuvens." Quando crescer desejo poder empinar pipas, como faço agora." Quando crescer quero continuar a ser meio criança, porque os adultos me parecem feios e infelizes." Pág. 258

Sorriremos, compreensivos. Não é bem isto, filho. Você vai ser médico, engenheiro, dentista. De novo, a pergunta sobre a utilidade social. Não é para isto que se organizam escolas, para que as crianças se esqueçam dos seus próprios corpos, e aprendam o mundo que os adultos lhes impõem? Lembro-me do lamento de Bergson: "Que infância teríamos tido, se nos tivessem permitido viver como desejávamos... E lembro-me também da "tolice" evangélica, que ninguém leva a sério: O Reino de Deus? É necessário que nos tornemos crianças primeiro..." Crianças, aqueles que brincam. Brinquedo: inutilidade absoluta. Zero de produtividade. Ao seu final, tudo continua como dantes: nenhuma mercadoria, nenhum lucro. Por que, então? Prazer, puro prazer. Diz o poema hebreu da criação que Deus, depois de seis dias de trabalho, parou suas mãos e se deteve extasiado, na pura contemplação daquilo que havia criado. E dizia: Como é belo..." Arte e brinquedo têm isto em comum; não são meios para fins mais importantes, mas puros horizontes utópicos em que se inspira toda a canseira do trabalho, suspiro da criatura oprimida que desejaria ser transformada em brinquedo e em beleza. Bem posso sentir interrogações graves que se levantam sobre sobrancelhas políticas que prefeririam que eu falasse sobre coisas mais sécias. Mas, que posso fazer? Meu demônio é o espírito de gravidade e acho que a política começa melhor no riso do que na azia... Afinal de contas, não é por isto que se realizam todas as revoluções? Que coisas mais importantes haverá que o brinquedo e a beleza? A justiça e a fraternidade, não são elas mesmas nada mais que condições para que os homens se tornem crianças e artistas? Não basta que os pobres tenham pão. É necessário que o pão seja comido com alegria, nos jardins. Não basta que as portas das prisões sejam abertas. E necessário que haja música nas ruas. Política, no final das contas, não será simplesmente isto, a arte da jardinagem transplantada para as coisas sociais? Examino os nossos currículos e os vejo cheios de lições sobre o poder. Leio-os novamente e encontro-os vazios de lições sobre o amor. E toda sociedade que sabe muito sobre o poder e pouco sobre o amor está destinada a ser possuída por demônios. É preciso reaprender a linguagem do amor, das coisas belas e das coisas boas, para que o corpo se levante e se disponha a lutar. Porque o corpo não luta pela verdade pura, mas está sempre pronto a viver e a morrer pelas coisas que ele ama. Na sabedoria do corpo, a verdade é apenas um instrumento e brinquedo do desejo... E é isto que eu desejo, que se re-instale na escola a linguagem do amor, para que as crianças redescubram a alegria de viver que nós mesmos já perdemos.



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Gada dia um fim em si mesmo. Ele não está ali por causa do amanhã. Não está ali como elo na linha de montagem que transformará crianças em adultos úteis e produtivos. É isto que exige o capitalismo: o permanente adiamento do prazer, em benefício do capital. Eu me lembro do Admirável mundo novo em que todos os prazeres gratuitos foram proibidos, em beneficio do progresso, e de 1984, em que a descoberta do corpo e do seu prazer se constituíram numa experiência de subversão... Que a aprendizagem seja uma extensão progressiva do corpo, que vai crescendo, inchando, não apenas em seu poder de compreender e de conviver com a natureza mas em sua capacidade para sentir o prazer, o prazer da contemplação da natureza, o fascínio perante os céus estrelados, a sensibilidade tátil ante as coisas que nos tocam, o prazer da fala, o prazer das histórias e das fantasias, o prazer da comida, da música, do fazer nada, do riso, da piada... Afinal de contas, nem é para isto que vivemos, o puro prazer de estarmos vivos? Acham que tal proposta é irresponsável? Mas eu creio que só aprendemos aquelas coisas que nos dão prazer. Fala-se no fracasso absoluto da educação brasileira, os moços não aprendem coisa alguma... O corpo, quando algo indigesto pára no estômago, vale-se de uma contração saudável: vomita. A forma que tem a cabeça de preservar a sua saúde, quando o desagradável é despejado lá dentro, não deixa de ser um vômito: o esquecimento. A recusa em aprender é uma demonstração de inteligência. O fracasso da educação é, assim, uma evidência de saúde e um protesto: a comida está deteriorada, não está cheirando bem, o gosto está esquisito... E creio mais que é só de prazer que surge a disciplina e a vontade de aprender. É justamente quando o prazer está ausente que a ameaça se torna necessária. E eu gostaria, então, que os nossos currículos fossem parecidos com a "Banda", que faz todo mundo marchar sem mandar, simplesmente por falar as coisas de amor. Masonde, nos nossos currículos, estão estas coisas de amor? Gostaria que eles se organizassem nas linhas do prazer: que falassem das coisas belas, que ensinassem física com as estrelas, pipas, os piões e as bolinhas de gude, a química com a culinária a biologia com as hortas e os aquários, política com o jogo de xadrez, que houvesse a história cômica dos heróis, as crônicas dos erros dos cientistas, e que o prazer e suas técnicas fossem objeto de muita meditação e experimentação... Enquanto a sociedade feliz não chega, que haja pelo menos fragmentos de futuro) em que a alegria é servida como sacramento, para que as crianças aprendam que o mundo pode ser diferente: que a escola, ela mesma, seja um fragmento de futuro... Sobretudo, que das nossas escolas se retire a sombra sinistra dos vestibulares. Digo-lhes que pouco me importo com tais exames como artifícios para escolher os poucos que entrarão e os muitos que ficarão de fora. Preocupa-me, antes, o terror que eles lançam sobre as crianças, antes que elas mesmas deles tenham conhecimento. Elas não sabem, Pág. 260

mas os pais já procuram os colégios que apertam mais - é preciso preparar para o vestibular - e as crianças perdem a alegria de viver, a alegria de aprender, a alegria de estudar. Porque a alegria do estudo está na pura gratuidade, estudar como quem brinca, estudar como quem ouve música... Mas, uma vez instaurado o terror, já não haverá tempo para a poesia, por amor a ela; e nem para a curiosidade histórica, por pura curiosidade; e nem para a meditação ociosa, coisa que faz parte do prazer de viver. Nossas melhores inteligências estão sendo arruinadas por esta catástrofe que, sozinha, tem mais influência sobre nosso sistema educacional do que todas as nossas leis juntas. Melhor seria que se fizesse um sorteio... E eu gostaria, por fim, que nas escolas se ensinasse o horror absoluto à violência e às armas de qualquer tipo. Quem sabe algum dia teremos uma Escola Superior de Paz, que se encarregará de falar sobre o horror das espadas e a beleza dos arados, a dor das lanças e o prazer das tesouras de podar. Que as crianças aprendessem também sobre a natureza que está sendo destruída pelo lucro, e as lições do dinossauro que foi destruído por causa do seu projeto de crescimento, enquanto as lagartixas sobreviveram... E certo que os mais aptos sobreviverão mas não sugere que os mais gordos sejamos mais aptos. E que houvesse lugar para que elas soubessem das lágrimas e da fome e que o seu projeto de alegria incluísse a todos... Que houvesse compaixão e esperança... E aqui está, minha filha, o meu bem-dizer, minha bendição, meu melhor desejo: que você seja, com todas as crianças, da alegria sempre uma aprendiz, para citar o Chico, e que a escola seja este espaço onde se servem às nossas crianças os aperitivos do futuro, em direção ao qual os nossos corpos se inclinam e os nossos sonhos voam ANÁLISE E REFLEXÃO



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