Neblina Sobre Mannheim Bernhard Schlink e Walter Popp



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Neblina Sobre Mannheim

Bernhard Schlink e Walter Popp

Traduzido do alemão por Fátima Freire de Andrade

Titulo Original: Selbsjustiz

1987, Diogenes Verlag AG Zurich

1ª edição

Depósito legal nº 171718/01

ISBN 972-41-2737-0

ASA Editores

Primeira Parte

1

O Korten manda entrar



Primeiro, invejei-o. Isso era na escola, na Escola Secundária Friedrich-Wilhelm, em Berlim. Eu vestia a roupa do meu pai, não tinha amigos e não conseguia içar-me

na barra fixa. Ele era o melhor da turma, também em Educação Física. Era convidado para todas as festas de anos, e, quando os professores o tratavam por senhor,

faziam-no cheios de deferência. Por vezes, o motorista do pai vinha buscá-lo de Mercedes. O meu pai trabalhava para os caminhos-de-ferro e, em 1934, acabara de ser

transferido de Karlsmhe para Berlim.

O Korten não admite faltas de eficiência. Ensinou-me a ele-var-me e a fazer rotações na barra. Eu admirava-o. Também me ensinou a lidar com as raparigas. Eu corria

como um parvo ao lado da miúda que morava no andar de baixo e que andava na Escola Secundária Luisen, em frente à Friedrich-Wilhelm, e idolatrava-a. O Korten beijou-a

no cinema.

Tornámo-nos amigos, estudámos juntos, ele Economia e eu Direito, e eu tinha a porta aberta na moradia do Wannsee. Quando a sua irmã Klara e eu nos casámos, ele foi

o padrinho e ofereceu-me a pesada secretária que ainda hoje tenho no escritório, feita de carvalho com entalhes e com ferragens de cobre.

Agora, raramente trabalho nela. O meu trabalho faz-me correr de um lado para o outro e, ao fim da tarde, quando ainda passo pelo escritório, não há pastas empilhadas

sobre a secretária. Só o atendedor de chamadas me espera e a pequena janela informa-me do número de mensagens gravadas. Sento-me então diante do tampo vazio e brinco

com o lápis, escutando o que devo fazer e o que devo deixar de fazer, aquilo a que devo lançar mãos e aquilo em que não devo tocar nem com as pontas dos dedos. Não

gosto de queimar os dedos. Mas também podemos entalá-los na gaveta de uma secretária para dentro da qual não olhamos há demasiado tempo.

Para mim, a guerra acabou ao fim de cinco semanas. Fui atingido pela Pátria. Três meses depois, tinham-me posto como novo e candidatei-me à Função Pública. Quando,

em 1942, começámos a trabalhar - o Korten para as Indústrias Químicas do Reno, em Ludwigshafen, e eu para o Ministério Público, em Heidelberg - ainda não tínhamos

casa, e partilhámos durante umas semanas o mesmo quarto de hotel. Em 1945, a minha carreira no Ministério Público terminou e ele arranjou-me os primeiros trabalhos

no meio industrial. Depois começou a sua ascensão, passou a ter pouco tempo e, com a morte da Klara, as visitas pelo Natal e pelos aniversários também acabaram.

Movíamo-nos em círculos distintos, e eu leio mais sobre ele do que aquilo que ouço. Por vezes encontramo-nos num concerto, ou no teatro, e entendemo-nos. Porque

somos velhos amigos.

Então... Lembro-me bem daquela manhã. Sentia o mundo a meus pés. O reumatismo dava-me uma folga, sentia a cabeça lúcida e parecia um jovem no meu fato azul - pelo

menos, era o que eu achava. O vento não trazia o habitual fedor da indústria química para aqui, para Mannheim, mas levava-o para o lado do Palatínado. Na padaria

da esquina havia croissants de chocolate, e eu comi o pequeno-almoço ao ar livre, no passeio, ao sol. Uma mulher jovem passava na Rua Moll, aproximou-se e tornou-se

mais bonita, e eu pousei a minha chávena de plástico no friso da montra e fui atrás dela. Poucos passos depois chegava ao meu escritório, no Centro Augusta.

Tenho um grande orgulho no meu escritório. Mandei pôr um vidro fumado na porta e na montra da antiga tabacaria, e inscrevi em sóbrias letras douradas:

Gerhard Selb Investigações Privadas

Havia duas mensagens no gravador de chamadas. O director de negócios da Goedecke precisava de um relatório. Eu conseguira arranjar provas da fraude cometida pelo

seu chefe de filial, e este queria saber mais pormenores, pois tinha recorrido do seu despedimento no Tribunal de Trabalho. Na outra mensagem, a senhora Schlemihl,

das Indústrias Químicas do Reno, pedia que lhe ligasse.

- Bom dia, senhora Schlemihl. Aqui fala Selb. Queria falar comigo?

- Bom dia, senhor doutor. O senhor director-geral Korten quer encontrar-se consigo.

Além da senhora Schlemihl, ninguém se dirige a mim tratando-me por "senhor doutor". Desde que deixei a advocacia, não dou uso ao meu título; um detective privado

promovido a doutor é ridículo. Mas, como boa secretária-chefe, a senhora Schlemihl nunca se esqueceu do modo como no nosso primeiro encontro, no início dos anos

cinquenta, o Korten nos apresentou

- De que se trata?

- Ele gostaria de lho dizer pessoalmente ao almoço, no casino dá-lhe jeito às 12h30m?

2

No Salão Azul



Em Mannheim e em Ludwigshafen, vivemos sob o olhar das Indústrias Químicas do Reno. Foram fundadas no ano de 1872, sete anos depois da Fábrica de Soda 8c de Anilina

de Baden, pelo químico Prof. Demel e pelo comendador, o industrial Entzen. Desde então, a fábrica não pára de crescer. Hoje em dia ocupa um terço da área construída

de Ludwigshafen e dá trabalho a quase cem mil trabalhadores. Juntamente com o vento, os ritmos de produção das IQR determinam se, e onde, na região, se sente o cheiro

a cloro, a enxofre ou a amoníaco.

O Casino situa-se fora do complexo da fábrica e tem a fama que lhe é própria. Ao lado do grande restaurante para os quadros médios, há uma parte reservada aos directores,

com vários salões mantidos nas cores da tinta com cuja síntese Demel e Entzen atingiram os seus primeiros sucessos. E há também um bar.

Era onde eu ainda estava às treze horas. Já me haviam comunicado logo à entrada que, infelizmente, o senhor director-geral se atrasara um pouco. Pedi um segundo

Aviateur.

- Campari, sumo de toranja, champanhe, um terço de cada.

A rapariga ruiva e sardenta que nesse dia servia atrás do balcão, alegrava-se por ter aprendido uma coisa nova.

- Faz isso muito bem - disse-lhe eu. Ela olhou-me com simpatia.

- Tem de esperar pelo senhor director-geral?

Eu já tinha tido esperas muito piores, dentro de automóveis, de entradas de prédios, de corredores, de átrios de hotéis e de estações de caminhos-de-ferro. Aqui,

encontrava-me debaixo de estuque dourado, numa galeria com retratos a óleo, entre os quais, um dia, também se encontraria o do Korten.

- Meu querido Selb! - dirigiu-se ele a mim.

Pequeno e seco, com olhos azuis muito vivos, cabelo grisalho cortado à escovinha e uma pele morena curtida por demasiado desporto ao sol. Se formasse um conjunto

com Richard von Wei-zsácker, Yul Brynner e Herbert von Karajan, conseguiria tornar a marcha de Baden, em ritmo de swing, num sucesso mundial.

- Lamento ter chegado atrasado. Ainda gostas de fumar e de beber? - Lançou um olhar duvidoso ao meu maço de Sweet Âflon. - Traga-me uma água Apollinaris! Como estás?

- Bem. Reduzi um pouco o meu ritmo, os meus sessenta e oito anos permitem-mo, já não aceito todos os trabalhos, e daqui a algumas semanas viajo até ao Egeu, para

velejar. E tu, ainda não abandonaste o leme?

- Gostaria muito. Mas levará ainda um ano ou dois, até que outro possa substituir-me. Atravessamos uma fase difícil.

- Devo vender?

Pensei nas minhas dez acções das IQR depositadas no cofre do Banco dos Funcionários de Baden.

- Não, meu querido Selb - riu-se ele. - No fundo, as Fases difíceis são sempre uma bênção para nós. Contudo, há coisas que nos preocupam, a longo e a curto prazo.

Por causa de um desses problemas a curto prazo é que quis falar-te hoje, e a seguir vamos reunir-nos com o Firner. Lembras-te dele?

Lembrava-me bem dele. Há poucos anos atrás, o Firner tornara-se director, mas para mim continuava a ser o lesto assistente do Korten.

- Ainda anda com a gravata da /larvard Business School?

O Korten não respondeu. Olhou-me pensativamente, como se meditasse na introdução de uma gravata própria na empresa. Agarrou-me o braço.

- Vamos para o Salão Azul, a mesa já está posta.

O Salão Azul era o melhor que as IQR podiam oferecer aos seus clientes. Uma sala decorada em estilo Arte Nova, com mesas e cadeiras de Van de Velde, um candeeiro

de Mackintosh e, na parede, uma paisagem industrial de Kokoschka. Tinham posto dois talheres, e quando nos sentámos o criado de mesa serviu-nos uma salada.

- Eu fico-me com a Apollinaris. Para ti, pedi um Château de Sannes, de que gostas. E para depois da salada, um tafelspitz?

O meu prato favorito. Que simpático da parte do Korten, ter pensado naquilo. A carne era tenra, o molho de rábano não tinha a inoportuna farinha, mas natas com fartura.

Para o Korten, o almoço terminara com a salada. Enquanto eu comia, ele foi direito ao assunto.

- Nunca mais confio em computadores. Quando vejo os jovens que, hoje em dia, nos chegam das universidades, que não são responsáveis e que não conseguem tomar nenhuma

decisão sem terem de perguntar primeiro ao Oráculo, recordo-me sempre do poema do Aprendiz de Feiticeiro. Quase me alegrei quando me contaram o problema no sistema.

Temos um dos melhores sistemas informáticos de gestão e informação empresarial do mundo. Não faço ideia de quem possa ter interesse nisso, mas, indo ao terminal

do computador, consegue saber-se que estamos hoje a almoçar tafelspitz e salada no Salão Azul, qual o trabalhador que se encontra neste momento a jogar no nosso

court de ténis, os casamentos intactos e desfeitos dos membros da nossa empresa, e que flores e a que ritmo estão a ser plantadas nos canteiros diante do Casino.

E claro que o computador regista tudo o que diz respeito à Contabilidade, à Secção de Pessoal, etc, que anteriormente arquivávamos em dossiers.

- E como poderei ajudar-vos?

- Tem paciência, meu querido Selb. Prometeram-nos um dos sistemas mais seguros. Isto quer dizer palavras-passe, códigos de acesso, restrições ao acesso de dados,

efeitos do Doomsday, e sei lá mais o quê. O objectivo de tudo isso era que ninguém pudesse penetrar e baralhar o nosso sistema. Mas foi isso mesmo o que aconteceu.

- Meu querido Korten... - Habituámo-nos a tratar-nos pelos nossos apelidos durante o tempo de escola secundária, e continuámos a fazê-lo também depois, como grandes

amigos. Mas o "meu querido Selb" enerva-me, e ele sabia disso. - Meu querido Korten, o ábaco já exigia de mais de mim, em criança. E agora tenho que me bater com

palavras-passe, códigos de acesso e salgalhadas de dados?

- Não, o que havia a esclarecer informaticamente já foi esclarecido. Se bem compreendi o Firner, há uma lista com as pessoas que poderão ter feito a baralhada no

nosso sistema, e trata-se apenas de descobrir quem é, de entre elas, o culpado. É exactamente o que tens de fazer. Averiguar, observar, seguir, fazer as perguntas

certas: o costume.

Eu queria saber mais e continuar a perguntar, mas ele esquivou-se.

- Eu próprio não sei mais nada, o Firner vai pôr-te a par de todos os pormenores. Não continuemos a falar durante o almoço sobre este caso triste; nestes anos, desde

a morte da Klara, tivemos tão poucas oportunidades para conversar um com o outro.

- Por isso conversámos acerca dos velhos tempos.

- Lembras-te?

Eu não gosto dos velhos tempos, arrumei-os e pus-lhes uma pedra em cima. Deveria ter estado com mais atenção quando o Korten falou dos sacrifícios que temos de fazer

e exigir. Mas SÓ me lembrei disso muito mais tarde.

Do tempo presente tínhamos pouco para conversar. Não me admirava que o seu filho se tivesse tornado deputado no Parlamento - logo desde cedo distinguira-se por ser

muito precoce. O Korten parecia desprezá-lo, sendo muito mais Orgulhoso dos seus netos. A Marion entrara para a Fundação dos Estudos do Povo Alemão, o Ulrich ganhara

o "Prémio Jovem Investigador" com um trabalho sobre os números primos. Eu poderia ter-lhe falado do Turbo, o meu gato, mas preferi não o fazer.

Bebi o meu café, e o Korten levantou-se da mesa. O chefe do Casino despediu se de nós. E dirigimo-nos para a fábrica.

3

Como se estivesse a ser condecorado



Foram apenas alguns passos. O Casino encontra-se em frente do portão número 1, à sombra do edifício da administração central que, com os seus vinte andares desprovidos

de imaginação, nem sequer consegue dominar a linha do horizonte da cidade.

O elevador dos directores só tem botões para os andares de 15 a 20. O escritório do director-geral é no vigésimo andar, e ao chegar eu estava com os ouvidos tapados.

No vestíbulo, o Korten deixou-me com a senhora Schlemihl, que me anunciou ao Firner. Um aperto de mãos, a minha nas suas duas, em vez de "meu querido Selb" disse

"velho amigo", e depois desapareceu. A senhora Schlemihl, secretária do Korten desde os anos cinquenta, que pagou pelo sucesso dele com uma vida não vivida, é de

um desgaste cuidado, come bolos, tem uns óculos que nunca usa, pendurados numa pequena corrente dourada à volta do pescoço, e estava ocupada. Eu fiquei de pé, perto

da janela, e olhei para o cais comercial e para a Man-nheim empalidecida de fumo, por sobre uma confusão de torres, hangares e canos. Gosto de paisagens industriais,

e não quereria ter de escolher entre o romantismo industrial e o idílio da floresta.

A senhora Schlemihl arrancou-me às minhas ociosas reflexões.

- Senhor doutor, posso apresentar-lhe a senhora Buchendorff? É ela quem dirige o secretariado do senhor director Firner.

Voltei-me e fiquei em frente de uma mulher alta e elegante, com cerca de trinta anos. Tinha o cabelo louro-escuro apanhado no alto da cabeça, e com isso dera ao

seu jovem rosto de bochechas redondas e lábios cheios uma expressão de competência experiente. Faltava o botão de cima à sua blusa de seda, e o seguinte estava aberto.

A senhora Schlemihl olhava-a com ar desaprovador.

- Bom dia, senhor doutor.

A senhora Buchendorff estendeu-me a mão e olhou-me de maneira directa com os seus olhos verdes. Agradou-me o seu olhar. Para mim, as mulheres só são bonitas quando

me olham nos olhos. Isso implica uma promessa, mesmo que nunca seja cumprida e nem sequer dita.

- Posso acompanhá-lo até ao senhor director Firner?

Ela saiu à minha frente, com um lindo meneio das ancas e do rabo. Ainda bem que as saias justas estão outra vez na moda. O escritório do Firner ficava no 19º andar.

Diante da porta do elevador, disse-lhe:

- Vamos antes pelas escadas.

- O senhor não tem o aspecto que eu esperava de um detective privado.

Já ouvira muitas vezes esta observação. Entretanto, já sei como é que as pessoas imaginam um detective privado. Não a penas mais novo.

- Espere até me ver de gabardina!

- Eu disse isto como um elogio. O da gabardina ficaria em apuros com o dossier que o Firner vai dar-lhe.

Ela dissera "o Firner". Estaria envolvida com ele?

- Então, sabe do que se trata.

- Até pertenço ao grupo dos suspeitos. Nos últimos três meses, o computador transferiu-me mensalmente um excesso de quinhentos marcos. E tenho acesso ao sistema

através do meu terminal.

- Teve de devolver o dinheiro?

- Não sou um caso único. Estão envolvidos cinquenta e sete colegas, e ainda não decidiram se vão exigir a devolução.

No seu gabinete, carregou no botão do intercomunicador.

- Senhor director, o senhor Selb está aqui.

O Firner engordara. A gravata era agora Yves Saint-Laurent. O seu andar e movimentos continuavam lestos, e o aperto de mão não se tornara mais firme. Sobre a sua

secretária havia um grande dossier.

- Saúdo-o, senhor Selb! Ainda bem que aceitou o caso. Pensámos que era melhor preparar um dossier com todos os pormenores. Entretanto, já temos a certeza de que

se trata de actos de sabotagem intencional. É verdade que, até agora, conseguimos restringir os prejuízos materiais. Mas temos de estar sempre prontos para novas

surpresas e não podemos fiar-nos em informação alguma.

Olhei-o interrogativamente.

- Comecemos pelos macaquinhos Rhesus. Os nossos telexes são feitos por processamento de texto e, se não forem urgentes, ficam gravados no sistema; são enviados durante

a noite, quando entra em vigor a tarifa mais baixa. Também procedemos dessa maneira com as nossas encomendas para a índia: em cada meio ano, o nosso Departamento

de Investigação precisa de cerca de cem macacos Rhesus com licença de exportação passada pelo Ministério do Comércio indiano. Há duas semanas, em vez de cem, saiu

uma nota de encomenda para cem mil macacos. Por sorte, os indianos acharam estranho e telefonaram-nos a confirmar.

Pensei em cem mil macaquinhos Rhesus na fábrica e sorri. O Firner fez um sorriso constrito.

- Pois, pois, este caso tem o seu lado cómico. A confusão com a distribuição dos courts de ténis também deu azo a muitas gargalhadas. Agora temos de olhar para cada

telex duas vezes, antes de os enviarmos.

- Como é que sabe que não se tratou de um erro de dactilografia?

- A secretária que dactilografou o teletexto imprimiu-o para ser verificado e rubricado pelo responsável, como de costume. Nessa impressão está o número correcto.

Por isso, foi o telex que foi mexido quando estava em fila de espera na memória. Também investigámos os outros incidentes que estão no dossier, e podemos excluir

os erros de programação ou de registo de dados.

- Bom, isso posso eu ler no dossier. Diga-me qualquer coisa em relação ao grupo dos suspeitos.

- Quanto a eles, procedemos de uma maneira convencional. De todos os trabalhadores com autorização, ou com possibilidade de acesso, excluímos os que já deram provas

de serem de confiança há mais de cinco anos. Como o primeiro incidente aconteceu há sete meses, também se excluíram os que só foram contratados desde então. Em alguns

dos casos foi possível determinar o dia em que houve o ataque ao sistema, Como, por exemplo, o do telex. Assim, excluímos os que se encontravam ausentes nesses dias.

Depois fomos a alguns dos nossos terminais e fizemos sair relatórios de todos os dados inseridos num determinado espaço de tempo, e não encontrámos nada. E, por

fim - sorriu com presunção -, podemos, evidentemente, excluir os directores.

- Quantos sobraram? - Perguntei.

- Cerca de cem.

- Isso vai dar-me que fazer durante anos. E quanto a um pirata vindo do exterior? Ouve-se falar muito neles.

- Conseguimos excluí-los num trabalho conjunto com os correios. O senhor fala de anos... Nós também sabemos que o caso não é simples. Contudo, o tempo urge. Tudo

isto não é apenas embaraçoso; com todos os segredos sobre a empresa e a produção que temos no computador, é perigoso. É como se, no meio de uma batalha...

O Firner é oficial na reserva.

- Deixemos as batalhas - interrompi eu. - Para quando quer o primeiro relatório?

- Quero pedir-lhe para me ir mantendo informado. Pode dispor, à sua vontade, do tempo dos homens do Serviço de Segurança da fábrica, da Protecção de Dados, do Centro

de Informática e da Secção de Pessoal, cujos relatórios se encontram no dossier. Não preciso de lhe dizer que lhe pedimos o máximo de discrição. Senhora Buchendorif,

a identificação do senhor Selb já está pronta? - perguntou pelo intercomunicador.

Ela entrou na sala e deu ao Firner um rectângulo de plástico do tamanho de um cartão de crédito. O Firner deu a volta à mesa.

- Tirámos-lhe uma fotografia a cores quando entrou no edifício da administração e plastificámo-la logo - disse ele com orgulho. - Com esta identificação pode movimentar-se

livremente, em qualquer altura, dentro do recinto da fábrica.

Com uma espécie de mola de roupa, prendeu-me o cartão na banda do casaco. Foi como se estivesse a ser condecorado. Quase bati os calcanhares.

4

O Turbo apanha um rato



Passei a noite a estudar o dossier. Um osso duro de roer. Tentei encontrar uma estrutura nos incidentes, um fio condutor para os ataques ao sistema. Os criminosos

tinham dado que fazer à Secção de Contabilidade. Durante meses, haviam dado ordem de transferência de quinhentos marcos a mais nos ordenados das secretárias-chefe,

entre as quais a senhora Buchendorff; duplicaram o montante do subsídio de férias dos escalões de menor salário, e apagaram todos os números de conta começados por

13 dos assalariados e empregados. Tinham-se introduzido na transmissão interna de mensagens da fábrica, fizeram sair para a imprensa documentos confidenciais da

direcção e suprimiram a lista que o chefe de secção recebe no início de cada mês com os prémios dos trabalhadores. O programa que gere a distribuição e reserva dos

courts de ténis tinha confirmado todos os pedidos para a muito> desejada sexta-feira, de tal maneira que, numa sexta-feira de Maio, 108 jogadores encontraram-se

nos 16 courts. A acrescentar, havia ainda a história com os macaquinhos Rhesus. Compreendi o sorriso constrito do Firner. Para uma empresa com a dimensão das [QjR,

OS prejuízos - cerca de cinco milhões de marcos - eram suportáveis. Mas quem causara esses prejuízos conseguia mexer-se à vontade nos sistemas de gestão e informação

da fábrica.

Escurecera, lá fora. Acendi a luz, liguei e desliguei umas quantas vezes o interruptor, mas, apesar de este também ser binário, não fiquei a saber mais sobre a natureza

do processamento electrónico de dados. Pensei se entre os meus amigos e conhecidos haveria algum que soubesse algo de computadores, e apercebi-me de quão velho eu

era. Havia um ornitólogo, um cirurgião, um mestre de xadrez, alguns juristas, todos eles senhores idosos para quem o computador era, tal como para mim, um mistério

guardado a sete chaves. Imaginei que tipo de pessoa seria aquela, que conseguia e gostava de lidar com computadores, o criminoso deste meu caso; a suposição de que

se tratava de uma só pessoa tornara-se evidente para mim.

Brincadeiras tardias de garoto? Um jogador, um excêntrico, um engraçado que troça de maneira grandiosa das IQR? Ou um chantagista, uma cabeça fria, que dá um leve

sinal de que tem poder para dar o Grande Golpe? Ou uma acção de agitação política? A opinião pública teria uma reacção muito sensível, se tivesse conhecimento da

dimensão do caos que reinava numa fábrica que lida com materiais altamente tóxicos. Mas não, um agitador político teria imaginado incidentes completamente diferentes,

e um chantagista já há muito tempo que teria podido avançar.

Fechei a janela. O vento mudara de direcção.

No dia seguinte, pretendia falar primeiro com o Danckel-mann, que era o chefe do Serviço de Segurança da fábrica. Depois iria à Secção de Pessoal passar os olhos

nos dossiers dos cem suspeitos. Contudo, tinha pouca esperança de descobrir num processo individual o jogador que eu imaginava. O pensamento de ter de verificar

cem suspeitos com as regras da arte encheu-me do mais puro horror. Tive esperança de que passassem palavra sobre a minha incumbência, que isso provocasse incidentes

e que, dessa maneira, diminuísse o número de suspeitos.

Não era um caso agradável. Só agora me apercebia de que O Korten nem sequer me perguntara se eu queria aceitá-lo. E que eu não lhe dissera que iria pensar primeiro.

O gato arranhou a porta da varanda. Abri, e o Turbo deixou um rato morto diante dos meus pés. Agradeci-lhe, e fui-me deitar.



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