Fonte: montaigne, Michel. Ensaios livro I. Edição baseada no texto original estabelecido por Albert Thibaudet para a “Bibliothèque de La Pléiade”, em confronto com o texto anotado pelo General Michaut



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Fonte: MONTAIGNE, Michel. Ensaios livro I. Edição baseada no texto original estabelecido por Albert Thibaudet para a “Bibliothèque de La Pléiade”, em confronto com o texto anotado pelo General Michaut (Edição Firmin Didot, Paris, 1907). Tradução, prefácio e notas linguísticas e interpretativas de Sérgio Milliet. Precedido de “Montaigne- O homem e a obra” de Pierre Moreau. Editora Globo, Porto Alegre. 1961.

Responsável: Prof. Dr. Carlos Mauro de Oliveira Júnior

Pesquisadora voluntária: Ana Beatriz Morais
Prefácio aos “ Ensaio” de Montaigne

Comentários:

Nessa parte, podemos observar algumas informações sobre a vida e a obra de Michel de Montaigne apresentados por Sérgio Milliet. Para o autor, a vivência de Montaigne e os lugares por onde ele passou tiveram uma grande importância na construção da perspectiva peculiar do escritor francês.

Podendo ser considerado um grande exemplo de humanista, Montaigne viveu um momento bastante complicado na história marcado pela transição do declínio da cultura medieval e o nascimento da era moderna. Pode-se verificar nas suas obras – principalmente nos ensaios pessoais - um certo conteúdo renascentista, onde o autor francês optou em substituir/complementar a informação (livresca) pela experiência e pela ação. Montaigne preocupava-se com a importância da observação direta e da análise por meio da elaboração de uma versão crítica dos fatos.

A tendência em colocar tudo em dúvida também influenciou os estudos de Montaigne sobre a observação do indivíduo. Segundo Sérgio Milliet “partindo do estudo de si mesmo, de ‘um homem’, alcança o ensaísta o conhecimento ‘do homem’”1. As características mais marcantes nas obras de Montaigne fazem parte de uma análise minuciosa da estrutura dos modos de cultura, das instituições, da moral e a filosofia dos homens. Os Ensaios apresentam um tom de sinceridade, mostrando a importância da filosofia e do ato de filosofar, seu método indutivo foi baseado na pesquisa de caráter psicológico. Mas essa sinceridade2 conduz a proposições de caráter ambíguo e paradoxal, até porque podemos afirmar, Montaigne exibia um caráter mais pragmático e, a questão da abstração deveria passar pelo campo da experiência.

Em matéria de religião, Montaigne era católico, porém tinha uma postura “liberal” o que o aproximou do Humanismo e dos estudos dos antigos. Não possuía afinidades pelo protestantismo, dizia que essa doutrina era um horror, uma intransigência e, não perdia tempo debatendo com os seus adeptos a respeito da interpretação de texto. Além de uma postura liberal, mostrava-se simpatias com o pensamento cético. Afirmava que só pela graça se chegaria à fé. A religião com seus preceitos e dogmas está fora do alcance da razão humana. [Explorar: existe em relação entre o Humanismo francês e o jansenismo?]

Em relação à política e à administração, segundo Sérgio Milliet, Montaigne desconfiava de todas as medidas que implicam na diminuição do indivíduo em benefício do Estado. Não concordava com a Guerra civil, dizia que a mesma não era a solução e que “ os abusos não se corrigem com outros abusos3.

Em matéria de conhecimento científico, Montaigne era um grande admirador da medicina, afirmava que a mesma poderia ser considerada uma arte, e que tudo além deveria se basear na observação e na experiência apreendida como são os estudos médicos.
Fichamento:

“ “Eu sou a verdade”, dirá; e desde logo pensamos em Descartes que, mais tarde, seguirá caminho idêntico. Ora, essa verdade é feita de contradições, de incongruências e condiciona-se a um número infinito de mentiras e erros. Essa verdade relativa, levará à conclusão da relatividade de tudo o que conhecemos pelos sentidos, já desvirtuados ou deformados pela razão. A sabedoria consiste portanto em nos compenetrarmos de nossa insuficiência e julgarmos com humildade, prudentemente, atentos sobremodo às leis da natureza e de Deus. O mais é vaidade, é orgulho, é estulta presunção”. (P. XI-XII)

Mas o que mais no impressiona na série infinita de reflexões e comentários dos Ensaios é a pesquisa psicológica de Montaigne, esta sim obediente ao método indutivo e avessa inteiramente a quaisquer doutrinas. Se se refere ao amor, é de suas aventuras que parte; se fala de amizade, é em função das que teve; se analisa o casamento, ao seu próprio se atém. O que não o impede de enfeitar seu texto, à moda da época, com numerosas citações latinas, nem sempre muito adequadas, e exemplos tirados da história grega e romana que o apaixonava ” (P.XII)
A lista dos livros que lê de 1577 a 1580, data da primeira edição dos Ensaios, compreende os “ Comentários” de Júlio César, a “República” de Platão, as “Cartas a Lucílio”, de Sêneca, as “Vidas” de Plutarco. Embora já doente dos rins e reumatizante, participa de várias campanhas militares, viaja pela Itália, vai à Alemanha, e volta para assumir a prefeitura de sua cidade, por ele governada até 1585. Lê Tácito, Heródoto, Tito Lívio, Santo Agostinho, Aristóteles, Cícero. Interessa-se igualmente pela história da América e do Oriente, mas quase não lê mais os poetas. Não é de resto um homem particularmente sensível à música do verso, embora tenha um juízo assaz lúcido acerca da qualidade dos poetas antigos e mesmo de alguns de seus contemporâneos. “ (pág.XIV)

Mas o século XVIII não o aprecia particularmente e cinquenta anos decorrem sem que se sinta a necessidade de reimprimi-lo. Esquecem-no ou o criticam acerbamente os filósofos e aborrecem-no os literatos. Mas com o ceticismo esclarecido dos enciclopedistas voltam a interessar seus comentários e a multiplicarem-se as edições, até os nossos dias. ” (Pág.XIV) [OBS: esse trecho trata a respeito das edições dos Ensaios que se sucederam, forma mais de trinta edições ao longo de 1595 e 1650].



Montaigne

O Homem e a obra
Por Pierre Moreau, tradução de Sérgio Milliet

I: Montaigne em sua vida
Comentários:
Michel Eyquem de Montaigne nasceu em 28 de fevereiro de 1533 em Périgord4, na localidade do Castelo da família. Era filho de Pierre Eyquem, que tinha sua filiação ligada aos comerciantes de Bordéus (vinhos, peixe, salgados, etc). Seu pai foi o primeiro da linhagem a abandonar esses negócios. Também foi filho de Antoinette de Louppes (ou Lopez), que era filha de um vendedor de vinhos de Tolosa, descendentes de negociantes judeus que eram originários da Espanha. Desde pequeno aprendeu latim, muito antes do francês, e foi educado por um pedagogo alemão. Com seis anos foi para o colégio de Guyenne que na época em que estudou lá era dirigido por um humanista português chamado Antônio de Gouveia.

Foi estudar direito em Bordéus5, mas com as agitações políticas e a insuficiência dos estudos, modificaram os planos do seu pai que acabou de trazê-lo para Tolosa, de onde só retorna pelo ano de a fim de ser nomeado Conselheiro em Périgueux. Tendo dissolvido este conselho, Montaigne retorna para Bordéus e lá também acaba se tornando o Conselheiro em 1557. Nessa cidade ele trava amizade com o magistrado Etienne La Boétie ( 1559-1561) .

Depois vai a Paris onde teve a oportunidade de participar da Tomada de Ruão, nesse episódio ele teve a ocasião de entrar em contato com alguns índios. Em 1571, ele abandona o cargo de conselheiro a fim de se dedicar à leitura e à redação de seu primeiro livro e comentários escritos em plena guerra civil. Não gostava muito dos hábitos da vida comum e da vida de cortesão, por isso, dava preferência à leitura, a meditação e aos estudos.

Para Pierre Moreau, essas localidades por onde Montaigne passou marcaram o caráter da sua personalidade e a sua estadia em Bordéus é a mais destacada. O quadro bordelês lhe desenvolveu uma curiosidade vivaz. Devido à influência de Guyenne foi-lhe aclimatando um certo “espírito atlântico” e também certas afinidades com o gênio inglês. Para o autor, em Montaigne é possível observamos uma espécie de senso da terra, devido à lógica áspera de pertencimento à cidade de Périgord, que lhe outorgou uma qualidade de pertencimento. Essa questão também influenciou a construção da visão naturalista de Montaigne.



Algumas correntes filosóficas influenciaram o pensamento de Montaigne, como o estoicismo (Sêneca, Plutarco) e também do ceticismo.
Fichamento:
“ “ Não pinto o ser, pinto a passagem, não a passagem de uma idade a outra, de sete, em sete anos, como diz o povo, mas dia a dia, minuto a minuto. Desejaríamos acompanhar quem escreve essas linhas- Michel Eyquem de Montaigne, nascido no castelo de Montaigne, Périgord, em 28 de fevereiro de 1533 e falecido no mesmo local a 13 de setembro de 1592 [...]” (pág.3)
[...] Tentara, parece, fazer carreira na Corte, onde o encontram repetidamente em 1561 e 1562 ( ano em que acompanha Carlos IX a Ruão), em 1559 ( ano e que vai com o Rei a Bar-le-Duc); mas não tardara a perceber que não tinha as qualidades do cortesão e não se comprazia muito em saudações e agradecimentos nem em “ tais ou quais cumprimentos verbosos das regras protocolares”.” (pág.4)
[...] A entrada de seu gabinete coloca uma inscrição filosófica em que abjura as obrigações do cortesão- servitium auliculum- sábia que tomara. Lê, medita, escreve. Sente afirmar-se em si a vocação de escritor que já se declarara em 1569, ao publicar sua tradução da Teologia Natural de Raymond Sebond e em 1571 ao editar os opúsculos de La Boétie, com “um discurso sobre a morte do Sr. La Boétie, por M. de Montaigne”. A obra, em que ora se enreda como que insensivelmente, é de maior fôlego e conhecerá fases diversas. ” (pág.5)
Mostram-no partindo da moral que convém em tempos de provações; o estoicismo- lendo Sêneca e familiarizando-se com os heróis de Plutarco. Aprendendo com eles a suportar a dor, a ideia da morte, a se abster das afeições humanas perturbadoras da serenidade da alma. Mais tarde- talvez por ler as obras morais de Plutarco, talvez por causa dos contatos com os céticos de sua época, talvez ainda por ter descido ao fundo de seu próprio ser.- Montaigne deixa-se tentar pelo ceticismo. O movimento universal, essa “passagem” perpétua- esse vir a ser sem fim que transporta, segundo Heráclito, os seres e as coisas- obsedam-lhe a imaginação enquanto escreve, para Margarida de Valois, a Apologia de Raymond Sebond. Manda cunhar, em 1576, uma medalha em que sua idade (42 anos) se acha inscrita e na qual representa a balança de pratos horizontais, símbolo da mais absoluta indiferença filosófica. Em seguida, após nova revolução, abandona o ceticismo. Percebe uma sabedoria positiva e a dúvida não abala; é, por exemplo, a que regula a “Instituição das crianças” e que ele expõe em um ensaio dedicado à Condessa Diana de Gurson. Há também realidades que Montaigne conhece bem- o prazer e a dor, a dor principalmente, que o atenaza desde quando, aos quarenta e cinco anos, surge sua “cólica-paixão” (cálculos biliares). ” (pág.6)
Encontramo-lo em 1574 no Bas-Poitou onde foi juntar-se ao exército encarregado de retomar Fontenay-leComte aos Huguenotes. No mesmo ano é encarregado de uma missão junto ao Parlamento de Bordéus. Visita cidades termais dos Pirineus, recebe algumas recompensas cortesãs- em 1571 o colar da ordem real de S. Miguel, em 1577 o título de camarista do rei de Navarra. Não lhe desagrada exibir algo de cavaleiro e de soldado ” (pág.6)
Entretanto, a idade avança. Montaigne entretém-se com seus novos amigos, com Pierre Charron, com Mlle de Gournay que conheceu em Paris , em 1588, e ama como uma filha. É tarde demais para que sonhe ainda com ambições mundanas e com cargos políticos, embora então pareça oferecer-se a ele a oportunidade da grande aventura graças aos êxitos de Henrique IV.[...]” (pág.8)
II: Montaigne em seu século.
Comentários:
O período ao qual Montaigne viveu foi assinalado pela transição da idade média para o renascimento. Esse momento foi marcado pelas inúmeras hesitações e progressos da idade moderna, ao qual em menos de pouco tempo, tinha brotado amplos acontecimentos. O advento da imprensa, o avanço das navegações marítimas para lugares até então desconhecidos e os relatos de viajantes, inaugurou um novo período ao qual a inquietação era uma característica constante e que marcou a personalidade do escritor francês.

Assim sendo, a mudança do modo de vida e da consciência moral também foi influenciada por esse movimento como afirma Pierre Moreau. Também podemos demostrar a importância da Reforma religiosa que modificou profundamente o modo de vida e as consciências no século XVI.

Tentando compreender melhor o momento ao qual Montaigne dedicou para escrever sua obra, Pierre Moreau afirma que durante o período que Montaigne publicou os Ensaios não era exatamente uma ocasião marcada pela euforia do Renascimento, mas sim pela convalescença, pelas recordações permeadas de nostalgias que foram capturadas por meio do olhar do humanista que tanto ficou impactado com as consequências das guerras civis. Surge na narrativa de Montaigne, uma espécie de busca pelo retorno à união entre os franceses. Mesmo que seja através da religião católica que retornassem à unidade sem violência.

Fichamentos:
Com efeito, em menos de cem anos os acontecimentos tinham-se precipitados: os turcos em Constantinopla; a imprensa; os grandes descobrimentos e os relatos de viajantes; as ousadias dos reformadores religiosos; a descoberta da Itália pelos franceses. Não se imagine que o italianismo fosse coisa recente, mas essa atração, mais do que secular, fora como que fecundada pelas guerras e as viagens reveladoras de um “ paraíso terrestre” da ciência e da doutrina das universalidades de Bolonha e Pádua. Tradutores haviam tornado conhecidos em França, Bandello, Boccácio, o Cortesão, de Castiglione- guias da sociedade ou da política, dos mundanos e dos estadistas. ” (Pág.9)

Um novo ideal de vida: esse gosto do luxo, do prazer que se exaltara em contato com o pensamento epicurista. Lorenzo Valla, autor do De Voluptate ac summo bono, não fora o único a fazer da volúpia o bem supremo. A França devia à Itália algo desse hedonismo naturalista que ilustrara, em Rabelais, o mito de Físis. Em meio às arquiteturas de Thélème, desenvolvia-se uma vida epicurista. ” (pág.9)


[...] Entre os mais impacientes desses espíritos ávidos, a sede de saber tornara-se cepticismo desde os primeiros dissabores de uma ciência excessivamente jovem. Tinham relido o Examen vanitatis doctrinae gentium de Francisco Pico de la Mirândola que de tudo duvidava, mesmo de sua dúvida; tinham visto as contradições da filosofia, a incerteza dos princípios, inclusive de Aristóteles. Se passavam desse livro ao de Cornélio Agripa- a Declaração da Incerteza e vaidade das ciências- encontravam, impiedosamente reunidas, as absurdidades da espécie humana. Idêntico quadro de Ultrich de Hutten, em Erasmo na Epistolae obscurorum vivorum. Em 1569, Gentiam Hervet e Robert Etienne davam-lhes uma tradução das obras de Sexto Empírico e, graças ao velho médico grego, os cépticos modernos recolhiam as armas dos cépticos antigos. Outros preferiam essa outra forma de cepticismo que consiste em uma homenagem à religião, essa submissão irracional à revelação divina, à qual darão mais tarde o nome de “fideísmo”. Mas não ocorrerá sempre, após uma explosão de racionalismo, uma onda de fideísmo? Logo que se denuncia a aliança entre a razão e a fé- fides quaerens intellectum- vão elas, cada qual por seu caminho próprio, de medo de esbarrar com a rival, e partilham o domínio do homem como que em obediência a desconfiado e tácito acordo. Para permanecer livre, deixa uma à outra uma liberdade sem controle nem contrapeso. Assim é que o fideísmo de Montaigne será o reverso ou o resgate do racionalismo italiano que Pierre Bunel, amigo de seu pai, talvez lhe houvesse trazido de Pádua.” (Pág. 10)
[...] Embriaguez de saber, apetite alegre de enciclopédia, eis o que obceca o século. ” (Pág. 11)
Ao mesmo tempo que o culto de antiguidade, transmitiu-nos a Itália o desejo de rivalizar com ela. Os homens do século XVI não abdicaram nem diante dos antigos nem diante da própria Itália. O vocábulo grego – patriota- exprime um dos sentimentos profundos do Renascimento francês. Paris é a seus olhos – aos olhos de Lemaire de Belges e de Montaigne- a grande cidade, mãe e soberana.

Toda a história dessa época literária está nesses conflitos e oscilações de forças que expulsam os franceses fora da França ou os trazem de volta. Sob o grego ou o romano, há um “vendômois”, que ri ou ama, um angevino que canta. No cenário da Corte ou nas suas simples paixões de homens, esses poetas imperiosos, sacrificando uma parte de seu ideal altivo, retornam à vida de seu tempo e seu país.“ (pág.11)
[..] A Teologia, entrando na língua vulgar, ensina-lhe virtudes novas, empresta-lhe uma fogosidade refreada, anima-a de cóleras incendiárias. Mas as letras, nesses tempos de massacres, iriam encontrar sua vocação natural, que é a de chamar os homens aos sentimentos humanos. A obsessão das dissensões religiosas pouco a pouco se transformaram em piedade pungente, em necessidade de reconciliação e paz. Nos Discursos políticos do protestante La Noue, é a Reforma essa tristeza das almas honestas esmagadas pelos acontecimentos demasiados rudes. “Ah, exclama ele, tantos personagens dignos, católicos e huguenotes, que nossas guerras mataram, merecem saudades, porquanto honravam nossa França ...” (pág. 11)
Todas as testemunhas da época nos dizem a que ponto o século chegou, após a agitação da Reforma e das guerras civis. Fora abalado e como que arrancado à sedução do Renascimento. Mas, agora, envelhecido, aspira à paz. Tantos elementos diversos resolvidos em seu turbilhar iam sedimentar-se, constituir pouco a pouco o classicismo; e para isso contribuíam os políticos com sua sabedoria prática, os humanistas com seu estoicismo renascente, os cristãos da Contra-Reforma com sua devoção acolhedora. Essa época, em que termina a obra do Concílio de Trento e começa a de Henrique IV, pode ser, de alguns pontos de vista, comparada ao momento de repouso e restauração que, sob o Consulado, se segue à Revolução.” (pág.12)

Certo moralista definiu muito bem essa época ingrata em que mais sofrimento havia do que esperança: “a vida de Montaigne está compreendida entre duas datas esclarecedoras: nasce no momento em que Rabelais dá início à sua obra jovial e ousada; morre antes que Henrique IV tenha tomado Paris e se firmado no trono. Não pertence nem à geração fogosa do Renascimento nem à geração feliz da Restauração. ” (pág.13)


Entre suas leituras prediletas encontra-se o romance de Rabelais, e apraz-se em citar o latim burlesco de Frei João. Leu Margarida, rainha de Navarra, refere-se amiúde a Ronsard e Du Bellay, para repetir com eles os hinos do humanismo. Recebeu em sua casa Jacques Peletirer du Mans. [...] Herdeiro também da virtú italiana que naturaliza francesa. Grande leitor do Cortesão de Castiglione, e companheiro de sabedoria do espanhol Guevarra...” (pág.13)
Na Itália visitou as cidades em que o racionalismo era ensinado; passou por Pádua, por Bolonha, e o cepticismo dos Pico de La Mirândola, dos Cornélio Agripa, há muito alimenta suas próprias dúvidas, seu fideísmo. ” (Pág. 13)
Mas esse filho do Renascimento sai ferido das guerras civis. Ergue os mesmos lamentos angustiados que o Ronsard dos Discursos sobre as misérias da época. Ele também suplica aos autores das divisões que retornem à unidade. Ouviu, junto a La Boétie agonizante, seu amigo rogar ao irmão protestante, Beauregard, que voltasse à religião Católica do próprio Montaigne e dos seus antepassados: “ Não sejais tão duro e violento, acomodai-vos a eles, não vos isoleis, juntai-vos. Bem vêdes quantas ruínas essas discussões (pág.13) trouxeram no reino, e eu vos garanto que outras muitas acarretarão. ” Esse será o desejo dos que virão depois de Montaigne e liquidarão a era das lutas entre franceses. Não vos isoleis, juntai-vos. ” (pág.14)
III: Montaigne fora dos Ensaios.
Comentários

Segundo Pierre Moreau, Montaigne compôs a obra sobre a teologia natural de Raymond Sebond devido ao pedido do seu pai, que outrora fora recomendada a ele pelo seu amigo Pierre Bunel. Preocupado em realizar uma análise da natureza humana, Montaigne observa as reações de alegria e de tristeza no homem. Assim sendo, apresenta uma visão otimista que foi influência pelos escritos de Sebond sobre a razão do homem e a sua natureza além de em alguns casos tratar de uma ideia de universalidade das coisas que leva a Deus, uma espécie de racionalismo cristão.



Para Pierre, a base da teologia e do naturalismo de Montaigne veio da Teologia Natural.


Fichamentos
O teólogo espanhol do século XV, que assim entrava na literatura francesa ao mesmo tempo que seu futuro apologista, renovara, no crepúsculo da Idade Média, a corrente antiga do pensamento agostiniano. É na própria condição do homem, frágil e como que incompleta, que Santo Agostinho, dez séculos antes, achara as mais fortes razões para crer. Raymond Sebond desce por sua vez no coração do homem: o homem e sua natureza, diz Montaigne em seus comentários à margem de sua tradução, são o objetivo dos argumentos do livro. Aí encontra essa análise interior que constituirá, para ele próprio, a alma de seus Ensaios. “Avante, pois, escreve traduzindo seu autor, penetremos o homem até o coração, raspemos e busquemos os segredos interiores de suas entranhas a fim de nelas descobrir em sua inteira nitidez, pondo-as em evidência, sua maneira de agir e a natureza corrompida de suas ações. ”Lições de realismo que se acrescentavam às que sua própria vida lhe deu. ” (pág.15)
[...] Sebond acredita na razão do homem, em sua boa e autêntica natureza, e para elas apela a fim de justificar sua apologética. Sob sua influência, Montaigne escreve certas palavras em honra da experiência, do senso comum, da ordem universal das coisas, de “toda hierarquia e harmonia do mundo”. Essa doutrina ensina ao homem a ver sem dor a verdade, na medida em que isso é possível à razão natural pelo conhecimento de Deus e de si mesmo, e do que necessita para sua salvação e para alcançar a vida eterna... só argumenta com coisas evidentes e conhecidas de todos pela experiência... Deus deu-nos dois livros, o da ordem universal das coisas ou da natureza, e o da Bíblia. Este foi-nos dado em primeiro lugar e já na origem do mundo.... Demais, o livro da natureza não é passível de falsificação, não se emenda nem se presta a interpretações errôneas. ”E acrescenta à margem: “ a universalidade das coisas é a escada pela qual o homem vai ao fundo de si mesmo. ” (Pág. 16)
Sebond pensa que a razão e a natureza de nada servirão se o homem não fôr primeiramente iluminado por Deus- nisi fuerit a Deo illuminatus. Tem confiança no espírito humano, mas sua confiança é prudente. Esse espírito serve-nos para ir a Deus, mas à condição de não se comprazer em sua própria companhia. Não nos cansemos da análise interior, porquanto sem ela não alcançaríamos a verdade, mas que essa análise nos ensine antes de tudo que a verdade não está em nós: “ Na medida em que melhor concebemos nossa precisão e indigência, mais espontaneamente nos aproximamos de Cristo. Assim a revelação de nossa natureza encaminha-nos a Deus. Quem se ignora como homem, ignora Deus... e que se ignora como homem pecaminosos, ignora Deus e o homem. Por isso o homem nunca deverá esquecer de ponderar sua natureza. Há que tê-la sempre à vista. ” (pág.16)
[Ida de Montaigne à Itália]

Esse fidalgo que assim se aventura, que força o impeliu pelas estradas? Ele mesmo no-lo disse algures, e a saúde, exigente de estações balneárias, não se nos afigura a razão primordial. Parte porque seu lar o aborrece, porque as preocupações domésticas o esmagam, e também porque há demasiado sofrimento na França das guerras civis. Parte porque ama as livres cavalgadas, a agitação temperada, em qualquer tempo. Seu pai tivera igualmente essa curiosidade dos alhures e trouxera das guerras da Itália um diário escrito do próprio punho. ” (pág.19)


E por toda parte algo para satisfazer sua curiosidade: a história maravilhosa de um galé, um acidente memorável, um costume singular. ” (pág.20)
Inquérito acerca da natureza humana, eis como se poderia chamar a viagem de Montaigne. Sem preconceitos nem desdém, vai ele, segundo as palavras da Educação dos filhos, esfregando e limando o cérebro no cérebro dos outros. Como morre em Roma um condenado; como se afugentam os demônios; que pensa o cura ou o pastor; quais as variações das formas de nossa natureza de acordo com as latitudes; eis suas indagações. Não há, a seu ver, melhor escola para a vida. Sente-se cidadão do mundo e despoja-se das ideias de sua província em se transplantando. Aspira tão-somente a adaptar-se aos costumes de cada país, aflige-se quando alguma de suas atitudes vem a chocar, procura falar a língua da região que visita. ” (pág.20)
Mas esse viajante de olhos sempre abertos é um cosmopolita, e só se lembra do que ficou atrás para melhor saborear o prazer da novidade. ” (pág.21)
Saudemos em Montaigne um dos primeiros desses peregrinos da glória que vão aos lugares onde soprou o espírito: “ Não sei se decorre de uma tendência natural ou de uma anomalia da imaginação, o fato é”, diz ele seguindo Cícero, “ que a visão dos lugares, que sabemos terem sido frequentados e habitados pelas pessoas cuja memória nos é cara, nos comove muito mais do que a narrativa de seus feitos ou a leitura de suas obras. ” (pág.22)
A máxima, a sentença moral, surgem gravemente, condimentando seu jeito de conversar: “ Para orientar e resolver negócios da ordem dos que tendes em mãos, cumpre valer-se de meios pouco comuns. Por isso, sempre se verifica que, onde as conquistas, pela sua grandeza e dificuldade, não puderam ser levadas a cabo pelas armas e a força, foram elas completadas pela clemência e a magnificência, excelentes iscas para atrair os homens, em particular para o justo e legítimo partido. ” (pág.24)
IV: Montaigne e os Ensaios.
Comentários

Os Ensaios podem ser considerados, de acordo com a análise de Pierre Moreau, como um amplo retrato da natureza humana, cujo olhar de Montaigne buscou delimitar. Nesse documento, repleto de uma psicologia introspectiva, ou seja, íntima, podemos observar uma narrativa que se desdobra em dois planos: a primeira conformando-se por meio da pessoa do autor, Montaigne apresenta “ ele próprio” em seus escritos através da descrição de sua condição como indivíduo e a segunda, podemos observar que existe a descrição de uma imagem geral da espécie humana, onde Montaigne colocou-se ao contrario dessa imagem. Ele constrói esse aspecto por meio de uma descrição que o mesmo se coloca fora dessa comum condição humana.



Assim, o comentador nos mostra que houveram alguns pensadores que se colocaram contra a metodologia de Montaigne, como Bacon e Pascal.


Fichamentos
Que se tenha dispersado em um quadro da humanidade a ponto de esquecer a verdadeira matéria dele próprio, pode-se pensá-lo no decurso de tantas páginas que nos conduzem à América ou à Roma, bem longe de Montaigne e de Bordéus. Há um quadro. Há nelas o homem do século XVI e o homem antigo, algumas ideias acerca do selvagem e umas tantas palavras sobre o indivíduo tal qual devera ser (pág.24). Desaparece um pouco Michel Eyquem. Sem dúvida diz eu mais do que qualquer outro moralista; mas não passa isso de uma maneira de ser diletante, de um estilo. Seu verdadeiro pensamento ultrapassa esse eu, abarca o universo humano. Ninguém mais do que ele se acomoda às formas contrárias às suas; ninguém mais do que ele toma de empréstimos alguns traços alheios para tornar agradável sua pintura e sem a pretensão de desenhar o próprio retrato. ” (pág.25)
[...] Quando Montaigne desenvolve suas ideias, fala-nos do primeiro, quando narra seus atos, do segundo. Aliás, em um mesmo momento, sente em si dois eus diferentes. “ A variedade e a contradição que se encontram em nós fazem que haja quem nos imagine com duas almas [...]” (pág.25)
[...] Somente lhe importa o que fala de si: homens, livros, coisas, apenas contam para ele na medida em que são espelhos de Michel de Montaigne. A filosofia abstrata aborrece-o e ele despreza a razão, esse pote de duas alças. Por que nos preocupamos com o pensamento do geral e as causas universais, que tão bem se conduzem sem nós, e deixarmos pata trás o fato de Michel de Montaigne, que nos toca de mais perto ainda do que o homem? Não é que queria fechar os olhos para o mundo: a alma pode ver e sentir todas as coisas, mas ela não deve alimentar-se senão de si mesma. ” (pág.26)
Antes de tudo porque, ocupando-se de si, limitando-se – segundo a opinião impiedosa de Bacon- a “esse pobre centro de atividade de um homem: ele próprio”, concebendo, como diz Pascal, “ o tolo projeto de se retratar”, retira-se da comunhão dos homens, torna-se uma espécie de herético. O herético não é apenas quem tem uma opinião; é também quem possui uma personalidade. Distingue-se do rebanho ortodoxo dos homens que pensam segundo os outros. As ideias comuns, o senso comum, os sentimentos sociais bastam-nos; por isso censuramos, como o cartesianismo de Malebranche, esse orgulho de “querer que os outros homens se ocupem de nós. ” (pág.27)
Deitemos um olhar sobre a primeira seleção dos Ensaios: o primeiro e o último capítulo terminam com a mesma conclusão: nada é constante, uniforme entre os homens; E a discordância sua qualidade específica. ” (pág.28)
Longe de fechar-se em si mesmo, quis ser mais universal, mais humano do que seus contemporâneos; à sua paróquia opôs o mundo; ao seu cura, que considera um cataclismo universal a geada em seus vinhedos, [...]” (pág.28)
[...]. Quanto mais se afasta das ideias de seu tempo, mais se assemelha a nós. Quanto mais escapa à forma particular de sua classe e de sua função, mais se ergue, pelo humanismo, à humanidade. ” (Pág.28)
[...] Aquele que não quer carregar cartaz, que não é homem de um ofício, de uma cidade, de uma época, e sim a imagem viva da natureza humana, universal e permanente? Foi porque pintaram o homem de bem que os nossos clássicos pintaram a humanidade; e foi por ter representado o homem de bem, que ele próprio era, que Montaigne pode a um tempo falar de si e de nós. ” (Pág.28)
Em suma, esse homem de bem é também um diletante. ” (pág. 29)
[...] Montaigne passou por todos os sistemas, estoicismos ou epicurismo, pirronismo ou empirismo. Revestiu todos os caracteres; nutriu-se de todos os livros. Pois não é ele que vemos caminhar através dos séculos, sempre o mesmo e sempre diverso? Seu ser é tão maleável, tão realmente humano, que bem pouco se lhe trocaria a fim de colocá-lo em Atenas ou Roma, na antiguidade ou em nosso tempo. ” (pág. 29)
Em resumo: porque possui a forma comum da condição humana: porque, como homem de bem, reduzia a essa forma comum sua forma particular; porque, como diletante, enriqueceu essa forma particular com todas as que a vida e os livros lhe apresentavam- bastou a Montaigne falar-nos de si mesmo para evocar a imagem de vinte outros pensadores, e entreter-nos de seu século para abrir-nos uma imensa perspectiva sobre os outros séculos. ” (pág.29)
[...] Basta-lhe que algum amigo de seu pensamento o saiba ler e deparar entre as linhas com sua verdadeira fisionomia. “ Não ergo aqui uma estátua para ser posta em alguma encruzilhada, igreja ou praça. É para se esconder em um recanto de biblioteca e divertir alguém com interesse particular em me conhecer”. (pág.31)

Em suam, o temperamento e os gostos desse Montaigne que vive nesse livro são dos mais vulgares; são o temperamento e os gostos de um indivíduo positivo preocupado com seu sossego, sua felicidade e os bens concretos[...]” (pág.33)


V: O Humanismo
Comentários:

Esse tópico trata das características humanísticas presentes na narrativa e na experiência de Montaigne como escritor e como cristão. Primeiro, aborda a necessidade de pensarmos como o vocábulo humanismo foi moldado por Montaigne, que o opôs ao vocábulo teólogo. Para Pierre Moreau, humanismo é um neologismo que além de representar um pensamento filosófico que olha para o que mais humano, mais vulgar estabelece uma separação entre as coisas de Deus e as coisas dos homens, que pode recriar a unidade humana.

Dentro de um segundo momento, podemos observar a questão que nos apresenta quais eram as fontes do humanismo que estariam ligados à influência do pai de Montaigne, que o aproximou dessa filosofia, que em Montaigne se apresenta quase que como um sentimento religioso relacionado com um amor pelo passado. Depois, busca nos mostrar um Montaigne mais “antigo” do que cristão, ligado às reflexões da

“Antiguidade profana” representando a aliança entre duas morais e duas correntes históricas, modelo tipicamente humanista.


Fichamentos:
Escrever como humanista é, pois, escrever humanamente, como um profano; é deter o olhar no que é humano, mas estendê-lo a tudo o que é humano. É juntar dentro de si a soma da experiência humana. E um humanista de nossa época, Mario Meunier, define bem esse termo aplicando-o a Montaigne: “ se o humanismo é a arte de se tornar o mais humano possível, de se edificar a si próprio como o pedreiro de seu próprio pensamento, Montaigne não fica aquém de nenhum desses humanistas que, antes ou depois dele, tentaram viver em comunhão de espírito com essa soma da experiência humana, esse capital intelectual e moral cuja aquisição nos é conservada pelas letras gregas, latinas e francesas”. (Pág. 34)
Humanismo, essa filosofia que substitui a mística do progresso à mística da salvação, essa crença na história contínua da Humanidade, esse culto das aquisições sucessivas que fazem da história do passado a seiva viva do presente. ” (Pág.34)
Em resumo: o culto da antiguidade, baseado no espírito histórico e penetrado do culto do próprio homem, eis o sentido do humanismo. É o sentido que lhe dá Montaigne, quer o procurem nas fontes e no fundamento, quer o considerem em seu revestimento superficial, em seu aparelho exterior de erudição ou nas ideias e na filosofia íntima que envolve. ” (Pág.35)
[...]. Lamenta que o descobrimento do Novo Mundo não tenha ocorrido na antiguidade: os selvagens houveram conhecido nossa Europa através de embaixadores mais generosos, mais dignos da conquista. Uma aliança natural se teria concluído entre a grandeza dessas almas primitivas e a grandeza greco-romana. ” (Pág.37)
A cada passo, nas terras dos índios ocidentais, imaginarão encontrar Aquiles ou Hércules. O sonho humanista é a nostalgia de um Éden perdido, de um Eliseu primitivo, onde as forças do homem, próximas ainda de sua origem, conservavam toda a sua virtude e todo o seu orgulho. ” (Pág.37)
[...] em si mesmo o conhecimento dos antigos comporta uma lição: repõe-nos em nosso lugar modesto, ensina-nos que somos apenas um ponto no vasto mundo. Induz-nos a sentir melhor a fuga inevitável da vida, e ao mesmo tempo, nos fortalece contra a morte; “ (pág.40)
Propôs-lhe a antiguidade modelos de vida e de ação. ” (Pág.40)
Evitou cuidadosamente de confundir dentro de si o humanista com o teólogo. Cada qual em seu campo. Mas de um a outro se estabelecem permutas, em segredo. O cristão nutre pelo discípulo de Homero uma amizade próxima da cumplicidade. Já se esboça, através dos Ensaios, essa figura matizada, complexa, de humanista cristão de que Charon, amigo de Montaigne, exibiu alguns traços ambíguos e que será, nas horas de piedosa distração, a figura de S. Francisco de Sales. Quem demarcará jamais as fronteiras imprecisas do século XVI profano com o século XVI devoto? ” (Pág.41)
Antes de deitar-se, Montaigne recita o Padre- Nosso e um verso de Virgílio. Para ilustrar uma mesma verdade invoca a um tempo uma réplica de Stilpon a Demétrio Poliorcete e uma oração de São Paulino de Nole a Deus. ” (Pág.41)
Uma face do humanismo ainda continua na sombra. Mas ninguém jamais apreendeu em um só golpe de vista todos os benefícios de um século tão rico, e os homens do século XVI não puderam enumerar todos os seus tesouros. [...]” (pág.42)
Experiência e razão, eis a alma dos Ensaios. ” (Pág.43)
Aos olhos desse fidalgo retirado em seu castelo todos esses mestres e doutores do barroco, armados de escolástica e silogística, e de eloquência, são o contrário do homem de bem, o qual jamais blasonará sapiência. ” (Pág.44)
Quem andar em busca de saber que o procure onde se aloja, pois não o blasono. O que aqui exponho são minhas fantasias e com elas não pretendo tornar conhecidas as coisas e sim tornar conhecido a mim mesmo. Talvez venha a conhecer um dia certas matérias, talvez já as tenha conhecido, segundo me tenha a sorte levado aonde o são, mas não me lembro, pois se sou homem de alguma leitura, o sou também de nenhuma memória. Por isso nada garanto, a não ser de tornar conhecido meu pensamento e até que ponto alcança nesta hora meu conhecimento acerca do que trato. Não se atente, portanto, para aquilo de que falo e sim para minha maneira de fala...” (pág.44)
Apela para o esforço pessoal, a observação direta, a experiência. “ (pág.45)
Ao fim de cada uma das avenidas dos Ensaios, encontramos a mesma imagem da liberdade, em pé entre a natureza e a vida, a fim de acolher a criança que se prepara para a vida, assim como o homem que prepara para a morte. A natureza, a vida, a liberdade: eis as palavras supremas do humanismo de Montaigne, bem como de sua pedagogia, as palavras cujo sentido indaga dos homens de outrora a fim de transmiti-lo aos homens do futuro. ” (Pág.45)
Continua; ....



1 Pág. XI “Prefácio aos “Ensaios” de Montaigne. Sérgio Millet.

2 “ Filosofar é aprender a morrer”, dizia Montaigne. Pág. XIII

3 P.XII

4 Périgord: é o nome do condado que se situava, aproximadamente, no atual departamento francês da Dordonha. Fronteira histórica entre a França e a Inglaterra, lugar com grande bagagem cultural.

5 Obs: Segundo Pierre Moreau, podemos perceber nos Ensaios em certo tom de claro domínio das singularidades da justiça francesa e do funcionamento do parlamento. Essas informações fazem parte do domínio da formação acadêmica de Montaigne.



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